nostalgia

Concordar, paradoxalmente, é a melhor forma de se desvencilhar dum indivíduo enfadonho e estulto. “Ah… ontem eu fui na balada e fiquei com Ana, aquela loira gostosa, lembra?”. Um sinal afirmativo com a cabeça (quem é Ana?) e um risinho de canto-de-boca é suficiente para satisfazer o ego do infeliz. Se não funcionar, algo como “você é o cara!” certamente o deixará contente e espiritualmente alimentado.
Da poltrona cáqui já desbotada de sua sala, fumou um charuto em homenagem à paixão que lhe destituíra o tão caro cotidiano-tédio (a paz trivial da vida, afirmava, era o melhor estado de espírito possível). Naquele momento, era a vez de se destituir dela - ou melhor, foi à busca da consciência de que as paixões são doenças, algum vírus passageiro.
Toda consciência é uma ou mais concepções perenes num indivíduo, o que significa dizer que a paixão se apresentava para ele como um erro proposital, uma entrega burra a uma mulher certamente menor que sua projeção apaixonada. Tragava e ria de si:
“Ridículo. Caralho… eu sou ridículo”.
Se há um sujeito a ser admirado, esse é o cientista. Não o leigo instruído, com suas suposições falaciosas e discursos infundados. Refiro-me ao racionalista e à sua empáfia – notadamente um ser superior aos crentes desavisados. O cientista, e todas as suas questões insolucionadas, é o homem que salva-nos da vulgaridade comum, e nos apresenta alguma sofisticação, alguma elegância. Curvo-me, com um sentimentozinho de impotência, ao cientista.
As recomendações da semana (ver menu ao lado):
Música: Arnaldo Antunes - Ao vivo no estúdio
Cinema: Modern Times
Fotografia: LIFE photo archive hosted by Google
Blog: Not Tupy
Às vezes acontece-me ser acometido por algo que se pode chamar de preguiça moral. Tome como exemplo uma fila que algum inconveniente resolve furar, passando descaradamente à frente de quem primeiro esperava. Se arrebatado pela referida doença, ignoro o espertinho, e chego até mesmo a criar certo ódio dos que reclamarem da peraltice.
Uma competência inata aos seres humanos é o reclamar de sua condição. Ou melhor, dar gritinhos cretinos do tipo “tenho a cabeça doendo” ou “está um calor de matar”, como se a qualquer interlocutor fosse interessante saber desses insignificantes incômodos - até mesmo para quem os sente.
Aí está algo para se levar em consideração: a vítima que todos ensaiamos ser, o deficiente, o mártir. Eis o princípio de funcionamento de, por exemplo, blogs como este, sempre alegando “dores de cabeça”, como a que acabo de descrever.
As recomendações da semana (ver menu ao lado):
Música: Beth Carvalho canta sambas da Bahia
Cinema: The Lord of the Rings
Fotografia: Photos that Changed the World
Blog: Heresia Loira
Alguns leitores vêm-me reclamar da falta de textos aqui - algo que me deixa com certo incômodo. O fato é que este blog tem como conteúdo primeiro os caprichos de um personagem que vai e vem sem qualquer controle meu. O tal do “Dom”, pode-se dizer, é cheio de manias. Paciência, pois, com ele senhores…
As viagens, por menos duradouras que sejam, sempre nos cansam. Encarar apenas o horizonte da estrada, as repetitivas placas de sinalização e as faixas do chão da pista nos leva ao desenvolvimento da consciência, e nada mais cansativo do que desenvolver a consciência.
Primeiro, e sempre, as pessoas precisaram de água para sobreviver. Depois, as energias (elétrica, eólica, química) se tornaram necessidades básicas que vão além do oferecido pela primitiva água. Caminhamos para algo muito mais complexo e sofisticado: a indispensabilidade da rede virtual.
A disponibilidade de água é uma questão de vida ou morte. A ausência de energia, pelo menos para o cidadão comum, é um obstáculo ao comodismo. Já a falta de rede é um problema de solidão.
Sou boêmio e machista de criação, e rebelando-se ao que a natureza prevera, meto-me a intelecual.
Estou com o vício de visitar o mar ao menos uma vez por semana. Sendo avesso ao hábito do banho em água salgada, o agrado está na contemplação melancólica do ir e vir das águas, do surgir branco da espuma na imensidão negra. Fica claro que isso se dá à noite, uma vez que o sol por demais desagrada-me, e digamos que não seja muito afeito ao suor gratuito.
Aproximar-se do que é gigante faz o homem diminuir-se, e ei-lo fazendo pouco dos seus problemas, pilheriando de suas angústias, galhofando dos seus medos. O mar bate-lhe à cara dizendo: “quem pensas que és, fedelho insignificante?”.
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"A classe média se abate progressivamente na imbecilidade e na inércia. O povo está na miséria. Os serviços públicos abandonados a uma rotina dormente. O estado é considerado na sua ação fiscal como um ladrão e tratado como um inimigo. A certeza deste rebaixamento invadiu todas as consciências. Por toda a parte se diz: o país está perdido!... Algum opositor do atual governo?... Não!"
Eça de Queirós