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Acepipes

Resolvi requintar a seção Acepipes, que fica no menu aí ao lado. Vou mudar mensalmente as indicações de sites, livros, discos e filmes que lá figuram (dez em cada mês). Do mês de junho esses são os petiscos que ofereço para o leitor degustar:

- Canis Familiares - Weblog que consta há muito tempo na minha Carta de Blogs, mas que merece constantemente ser lembrado pela criatividade dos escritos do seu autor - o carioca Thiago Quintela. Vide seu último texto, “Seleção”, no qual o técnico da Seleção Brasileira o convida a participar da Copa América.

- Provocações - Programa da TV Cultura apresentado por Antônio Abujamra. No site do programa se lê: “O que queremos com este programa? Lembrar às pessoas que existem na vida outros, diversos outros, espaços e cenários possíveis.”. Vale a pena acessar a seção “Textos e Poesias” do site (tudo pode ser ouvido na voz de Abujamra).

- Re[corte]Cultural - Em minha opinião, um dos melhores programas da tevê aberta, apresentado por Michel Melamed de segunda a sexta na TVE Brasil. No site do programa tem uma lista de livros sugeridos pelo apresentador.

- Perfume - Filme que tem como cenário a França do século XVIII e conta a história de Jean Baptiste Grenouille. Com uma capacidade extrema de perceber odores, ele acaba sentindo o mais sublime de todos eles: o que as mulheres virgens possuem. Mas, para capturar esse odor e transformá-lo num encantador perfume ele precisará matar.

- A República - Clássico que dispensa comentários e elogios. Obra básica para entender o pensamento do mestre grego Platão.

- Plic Plac - Ótimo website do célebre blogueiro Nemo Nox, com fotos de imagens cotidianas.

- The FWA - Para quem curte webdesign - mesmo não sendo especialista - é um bom espaço para ver o que há de melhor em estilos de sites de todo o mundo.

- The Old Guitarrist - Pintura de Pablo Picasso.

- Manual Prático da Boa Vida - Coluna do cantor e enófilo Ed Motta no site da Revista VEJA, com boas dicas gastronômicas, musicais, literárias…

- Moët & Chandon - Website da fábrica de champagne Moët Chandon. Design elegante e atraente para quem já teve a oportunidade de provar dessa caríssima bebida.

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Aproveito o post para agradecer o destaque dado a este blog pelo jornalista Jânio Rêgo, publicando o texto “Espetaculindas” em seu website e elegendo o Café do Dom como Blog da Semana em seu Blog da Feira.

Template reduzido.

Como se percebe, o Café do Dom agora possui um novo layout, mais simples e enxuto. É um layout sem ambições - com um minimalismo de cores, ilustrações e bytes. É a terceira versão deste blog, e, tal como a primeira e a segunda, foi confeccionada por este blogueiro que vos escreve.

O Rei-Filósofo

“Enquanto filósofos não governarem como reis ou aqueles que são hoje chamados reis e soberanos não filosofarem genuína e adequadamente, isto é, enquanto poder político e filosofia não forem completamente conjugados, enquanto a horda multíplice de naturezas que presentemente aplica exclusivamente um ou outra não for compulsoriamente impedida de assim agir, os Estados jamais se livrarão dos males, tampouco a espécie humana.”

Platão, em A República.

Sobre o inverno e suas implicações.

- Eis que chegam os festejos juninos - a comemoração menos burguesa do ano. Milho, amendoim, fogueira, licores e forró: tudo isso sob a estação mais aconchegante, o inverno.

- Ontem fui ao restaurante Tapioca com Dendê, aqui em Feira de Santana. Comi macaxeira com recheio de queijo e presunto, e molho vermelho (além dumas gotas de azeite); algo parecido com uma lasanha de aipim. Para acompanhar, licor de passas. Muito bom.

- “Um dia frio, um bom lugar pra ler um livro”, canta Djavan. Com o inverno em vigor, escolhi Os Trabalhadores do Mar, de Victor Hugo, para ler.

A escultura de Iemanjá

Na praia, sentada num desses banquinhos românticos que só são românticos por sua proximidade com o mar, estava ela sentada, lendo um livro. Os cabelos pretos, lisos, com um penteado de noviça, eram devassados pelo vento - um dos elementos mais ousados da natureza. Não sei que livro era aquele, mas a expressão severa e concentrada da leitora me dizia que se tratava de obra ferina, talvez um “Crime e Castigo”, talvez um “Werther”.

Vestia um vestido abaixo do joelho, quase no calcanhar, florido, e que fazia-se ausente nas panturrilhas em virtude do cruzar de pernas sensual, porque com pudor. Possuía no calcanhar direito um cordão que amarrava uma concha, o que faz deduzir ser mulher com alguma intimidade com o mar. Sandália de dedo e óculos transparentes completam a descrição de seus apetrechos.

Não quis me atrever a conhecê-la, perguntar seu nome, ou qual era aquele livro. Uma visão romântica e paradisíaca nem sempre deve se desfazer na ambição de tomá-la para si. É assim que as belas flores murcham quando arrancadas do seu habitat. Aquela mulher estava ali para ser contemplada - como se fosse uma escultura feita por Iemanjá.

Sacro-femininas

Algumas mulheres possuem o pedantismo característico dos seres que se sabem belos. São perigosas, têm em si a conivência da natureza para esnobar.

Elas aprendem desde cedo a rechaçar, a dizer “nãos” cruéis a qualquer homem. Têm olhares acintosos, desviam-se com infâmia dos toques masculinos.

Por serem sublimemente exclusivas, são o regozijo de todos os homens. Eles galanteiam, cortejam, insistem em tê-las como prêmio de suas existências. Mas, uma vez conquistadas, elas perdem o misticismo da unicidade; por isso têm razão em negar o profano.

Espetaculindas

Estamos vivendo a época das espetaculindas. O termo é originário duma comunidade que vi no orkut, e expressa bem o paradigma de beleza feminina atual. Nunca as mulheres ditas “normais”, as que diariamente esbarramo-nos nas ruas, foram tão semelhantes às celebridades. Um marido, após assistir a novela das oito e comparar as mulheres da tevê com sua esposa, no mínimo vai perceber o esforço de sua cônjuge em estar parecida com aquelas.

Estamos perdendo a variabilidade, nosso conceito de boniteza está estereotipado, engessado, afinal, ser bela é parecer independente e altiva, profissionalmente bem-sucedida. Ser bela é ser Gisele Bündchen, Luana Piovani, Debora Secco - todas elas enjoativamente parecidas, europeizadas. Onde estão as hippies? As intelectuais? As religiosas?

O que fizemos com a mulher recatada? Está em extinção o uso de tranças no cabelo e saia abaixo do joelho. Não me refiro à mulher submissa, aquela que não sabe gozar, e que é empregada doméstica do marido. A mulher recatada é aquela que reproduz seus pudores, sua timidez, na forma de se vestir e se portar. Chegamos então ao absurdo de ter mulheres vestindo irracionalmente saias com um palmo de altura, mas que se ofendem com o olhar libidinoso dum macho.

Creio que já se provou que elas são capazes de quase tudo que nós, homens, somos - arrisco em dizer que até possam mais. Os que ainda não acreditam nisso, diante de tantas evidências, certamente nunca serão convencidos. Desta forma, questiono esse automatismo que torna as mulheres tendentes a adotar o modelo espetacular como seu conceito de lindeza. Sempre disseram que nós, machos, somos todos iguais; uma mentira maldosa que parece estar virando-se contra o feiticeiro (para nosso desespero).

Menina da rede

Outro dia, da sacada de minha casa, observei uma garota deitada numa rede balançando sem agredir muito o ar. A menina sorria para o céu nublado, ensolarando a tarde chuvosa. Que pensava ela?

Mais ou menos dez anos, e com o poder da perversão do tempo.

Devo dizer que fiquei convencido que a normalidade pode ser vista com o olhar do espanto. Eu via, espantado, uma menina trivial, e ela, por sua vez, espantava o que via. Será por ser menina, por ser criança, ou aquilo era um dom?

Que tipo de sonhos piruetavam naquela cabecinha?

Brás Cubas, personagem machadiano, desabafa em certo ponto de suas Memórias Póstumas: “Não tive filhos, não transmiti a nenhuma criatura o legado da nossa miséria”. Ao tempo em que faço apologia à frase, me contradigo, e indago quão mais miserável tudo seria sem a esperança impúbere da infância.

Poesia Popular Brasileira

Já li que a poesia brasileira passa por uma crise, e que nos últimos anos a vendagem irrisória de livros de poemas se deve à escassez de poetas “competentes”, como os consagrados Carlos Drummond de Andrade e Vinícius de Moraes, ou mesmo baluartes da nossa literatura como Castro Alves ou Augusto dos Anjos. Ao mesmo tempo, muitos se perguntam quem são os poetas que estão produzindo literatura (de verdade) em nossa bastarda contemporaneidade.

Percebo na música a saída para esta carência. Afinal de contas, compositores como Caetano Veloso, Chico Buarque, Chico César e muitos outros são “lidos” abundantemente mesmo por quem se diz “impaciente” para ler poesia. Aliás, diga-se que “música”, na verdade, é o conjunto de sons produzidos pelos instrumentos musicais, e “letra” temos como as palavras cantadas no ritmo da música. E o que é a letra de uma música senão um poema?

Eufemismos a parte, creio que as letras, os poemas, as metáforas produzidas pelos nossos compositores, ou poetas, têm sido pouco vistas criticamente como poesia. Talvez por isso, quando digo que gosto de poesia, me chamam de intelectual, culto… enquanto vêem com naturalidade ouvir músicas com letras às vezes mais complexas e profundas do que um poema que esteja escrito num livro.

Quem há de negar a excelência de poetas como os três citados acima? Chico Buarque e Caetano, na minha humilde opinião, deveriam constar nas páginas dos livros didáticos de literatura brasileira - e talvez irão, não só por seus papéis históricos em movimentos como o Tropicalismo, mas, principalmente, por seus gênios criativos. Mesmo sendo autores desta estirpe, diariamente ouvimos suas produções na tevê e nas rádios. A música tornou popular a poesia, de maneira que a MPB trouxe, assim, a PPB, Poesia Popular Brasileira.

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Duas letras que estou digerindo atualmente, uma de Caetano Veloso e outra de Chico César; percebam a riqueza metafórica e lingüística de ambas: Língua e Béradêro.
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Alexandre Inagaki escreveu um texto interessante, analisando a fundamentação da metáfora “Segredos de liquidificador”, do poeta Cazuza. Clique aqui para ler.

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"Fiz de mim o que não soube,
E o que podia fazer de mim não o fiz.
O dominó que vesti era errado.
Conheceram-me logo por quem não era e não desmenti, e perdi-me.
Quando quis tirar a máscara,
Estava pegada à cara.
Quando a tirei e me vi ao espelho,
Já tinha envelhecido."
Álvaro de Campos