A escultura de Iemanjá
Na praia, sentada num desses banquinhos românticos que só são românticos por sua proximidade com o mar, estava ela sentada, lendo um livro. Os cabelos pretos, lisos, com um penteado de noviça, eram devassados pelo vento – um dos elementos mais ousados da natureza. Não sei que livro era aquele, mas a expressão severa e concentrada da leitora me dizia que se tratava de obra ferina, talvez um “Crime e Castigo”, talvez um “Werther”.
Vestia um vestido abaixo do joelho, quase no calcanhar, florido, e que fazia-se ausente nas panturrilhas em virtude do cruzar de pernas sensual, porque com pudor. Possuía no calcanhar direito um cordão que amarrava uma concha, o que faz deduzir ser mulher com alguma intimidade com o mar. Sandália de dedo e óculos transparentes completam a descrição de seus apetrechos.
Não quis me atrever a conhecê-la, perguntar seu nome, ou qual era aquele livro. Uma visão romântica e paradisíaca nem sempre deve se desfazer na ambição de tomá-la para si. É assim que as belas flores murcham quando arrancadas do seu habitat. Aquela mulher estava ali para ser contemplada – como se fosse uma escultura feita por Iemanjá.






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