Menina da rede
Outro dia, da sacada de minha casa, observei uma garota deitada numa rede balançando sem agredir muito o ar. A menina sorria para o céu nublado, ensolarando a tarde chuvosa. Que pensava ela?
Mais ou menos dez anos, e com o poder da perversão do tempo.
Devo dizer que fiquei convencido que a normalidade pode ser vista com o olhar do espanto. Eu via, espantado, uma menina trivial, e ela, por sua vez, espantava o que via. Será por ser menina, por ser criança, ou aquilo era um dom?
Que tipo de sonhos piruetavam naquela cabecinha?
Brás Cubas, personagem machadiano, desabafa em certo ponto de suas Memórias Póstumas: “Não tive filhos, não transmiti a nenhuma criatura o legado da nossa miséria”. Ao tempo em que faço apologia à frase, me contradigo, e indago quão mais miserável tudo seria sem a esperança impúbere da infância.






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