Header

Existenciando

Acho em mim um incômodo apático pelas coisas. Pelas pessoas inúteis, cheias de sentimentos farsas, ressentimentos safados. Enfadonho mundo, em que vivem criaturas mal-criadas, objetos-espíritos, banalidades.

Aprendemos a comer as mulheres, as mulheres aprenderam a serem comidas. Asquerosa cadeia alimentar que nos domina. E ainda existem poetas que falam de amor…

Anseio vomitar a catástrofe que se formou dentro de mim, um realismo pessimista que desesperança-me. Parece que uma tropa marcha em meu estômago: a guerra está próxima. Sutil engasgo de uma vida indigerível.

E então me chamam de descrente, me olham como um pérfido conspirador. “Onde está Deus naquele homem?”. Sugiro aos religiosos a exaltação da bondade, do raciocínio, da coerência — e não o dobrar-se ante uma arrogância despótica.

* * *

“Sou vil, sou reles, como toda a gente
Não tenho ideais, mas não os tem ninguém.
Quem diz que os tem é como eu, mas mente.
Quem diz que busca é porque não os tem.
É com a imaginação que eu amo o bem.
Meu baixo ser porém não mo consente.
Passo, fantasma do meu ser presente,
Ébrio, por intervalos, de um Além.
Como todos não creio no que creio.
Talvez possa morrer por esse ideal.
Mas, enquanto não morro, falo e leio.
Justificar-me? Sou quem todos são…
Modificar-me? Para meu igual?…
— Acaba lá com isso, ó coração!”

Barrow-on-Furness, Fernando Pessoa.

A fome de José.

José chegou em casa como sempre chegava em outros dias. Ficou todo o expediente aturando seu sogro na empresa, “aquele velho ranzinza”. Desde que se casara com Brigitte suportava aquela rotina cansativa, estafante. Não fisicamente, pois passava o dia todo numa sala com ar-condicionado, frigobar e sentado numa cadeira confortabilíssima. Contudo, José tinha a moral destroçada por ter que bajular um homem avaro e esnobe. Fazer elogios inúteis, obedecer cegamente aos devaneios de alguém que julgava um idiota.

A situação de José era complicada, pois não via como se afastar de seu sogro sem se separar de Brigitte. O casamento é um contrato que abarca não apenas um acordo nupcial, mas toda uma gama de obrigações sociais e econômicas. Casar-se com Brigitte foi assinar uma promissória com o velho.

Pois bem. Naquele dia aparentemente chato, como os demais, José chegou e viu sua mulher deitada no sofá branco da sala, lendo um livro. Brigitte era uma patricinha, nunca deixou de ser; mas na cena que seu marido então a via parecia estar desfeita aquela aura fútil que lhe era peculiar. Estava com uma camisola bege, sem maquiagem no rosto, e os cabelos loiros e lisos espalhados pelo branco do sofá.

Eis que José viu a mulher dos seus sonhos ali. A mulher que lia em romances, quando ainda adolescente. Aproximou-se dela, e beijou-lhe o pescoço, sentindo a falta do perfume que era comum usar. Estranhando, novamente cheirou o pescoço dela, e, pela primeira vez, sentia o verdadeiro perfume de Brigitte. Ela sorriu com as cócegas que o nariz dele fez.

Daí para o beijo foi pouco. José, um animal faminto, que nunca tinha possuído aquela Brigitte, fez questão de sentir cada parte daquele corpo em seus lábios. Roçava sua pele na pele dela como se quisesse misturá-las. Estava louco, e assim possuiu Brigitte: faminto de suas pernas, do púbis, do umbigo, dos seios, da boca. Naquela noite, José perdera efetivamente a virgindade: fez o sexo divino, teve o gozo indizível.

Tudo isso foi-me dito, numa mesa de bar, pelo próprio José. Hoje, ele mora só, num apartamento simples, sem luxo. Não tem mais o sogro para bajular nem as obrigações sociais exigidas pelo matrimônio. Sua família e alguns de seus amigos dizem que não deveria ter se separado de Brigitte, mulher bonita e rica. Mas José se sente melhor atualmente, apesar de estar desempregado e sem a pompa do passado. Aquela noite, segundo ele, é o único momento de que sente saudade, mas por tudo ter sido o que não era. E foi ali, quando Brigitte se fantasiou, que ele percebeu sua inadequação àquele mundo.

Leviatãs

A cidade grande é um monstro faminto que quer engolir tudo à sua volta. Assim, quando viajo a Salvador, saindo da minha Feira de Santana (ainda com muito menos de um milhão de habitantes), sinto-me entrando na bocarra daquela megalópole quando leio a placa “Bem-vindo a Salvador!”. A placa fica sob um viaduto, que mais parece formar, com as duas colunas que o sustentam e a estrada, a mandíbula duma fera.

Entrar na garganta duma cidade grande significa passar a ter cuidados, medos e surpresas ímpares. As ruas, avenidas e túneis são veias pujantes, onde escorrem os veículos em movimentos frenéticos, sempre em direção ao infinito, ao inalcançável – daí sempre estarem em alta velocidade. E esse é um dos fatores indispensáveis da cidade grande: a velocidade. A razão entre espaço e tempo; a compulsão por estar longe de maneira breve.

Pelo céu passam os aviões, zumbindo e piscando luzinhas: uma mistura excêntrica de abelha com vaga-lume, mas que, por ser pesado e duro, não inspira a graça daqueles animaizinhos. Aliás, a cidade grande é quase toda assim. Robusta, inflexível, austera. Quem quiser que a não respeite. Com horários, lugares e costumes peculiares, as grandes metrópoles podem ser cruéis com os desavisados ou audaciosos. A esquina em que não se pode passar depois das 22:00; o beco reservado a namorados durante a noite; a temeridade de tentar conversar com um cobrador de ônibus…

Salvador, Recife, São Paulo, Rio de Janeiro, Belo Horizonte: quantas dessa criaturas implacáveis temos no Brasil, cada vez crescendo mais, inchando e engolindo, ambicionando sempre mais adiposidades; que são pessoas, carros, metrôs, prédios. Há quem enfrente esses Leviatãs que são as cidades grandes. Nesse sentido, sou um covarde, passo sempre medroso por elas, passeando por suas entranhas sempre numa contemplação tímida.

* * *

Este blog se une ao abatimento geral que toma conta do país por causa do acidente com um avião em São Paulo.

Algumas palavras para Dona Marina

Família não se escolhe. Alguns têm a sorte de ter uma tia bacana, despojada, e que entende todos os erros e vontades das gerações mais novas que a dela. Outros odeiam aquela tia que sempre evitam encontrar, pois querem fugir do achaque cafona, repleto de perguntas e afirmações que desanimam os mais bem-humorados espíritos. Não tive esse problema com minha avó, mulher de língua ferina, espirituosa, mas bondosa, de coração mole.

Minha avó visitava minha casa, quando ainda eu era criança, todos os domingos. Domingo que ela não viesse não era domingo - e quando aqui estava em outro dia, virava domingo mesmo uma enfadonha segunda-feira. “Bença vó!”, era a saudação de praxe sempre que ela chegava, e, após isso, beijar-lhe a mão enrugada, numa demonstração de afeto que ainda hoje lembro nos meus lábios.

Todo mês, sem falta, ela trazia cinco reais para mim. Dinheiro que saía do salário mínimo da sua aposentadoria: Eu fazia planos durante todo o mês já pensando naquele ordenado. Além disso, cocadas, iogurte e batata eram seus presentes semanais. Sabedora do meu prazer em comer batata-frita, trazia-as ela para minha mãe fritar, e nós, crianças peraltas que éramos, comíamos sempre antes do meio-dia, eu e ela, enquanto minha mãe reclamava que nada sobraria para o almoço.

Recordo as vezes em que ela impedia as palmadas de meu pai, ou de quando ele brigava comigo, sem estar na presença dela, e eu dizia que iria morar com ela. Quando a visitava, comia e bebia do bom e do melhor, além de querer me fazer mil vontades que superavam até minhas noções de luxo. Lembro do seu cheiro, dos seus vestidos sempre floridos, do seu cabelo pintado e nunca branco.

As avós são deusas. Conseguem-nos o respeito sem que lhes tenhamos medo. Um pedido de é uma ordem - que temos prazer em cumprir. Ao mesmo tempo somos seus reis e seus súditos - curiosa relação. Faz alguns anos já que Dona Marina faleceu, mas ainda hoje a vejo entrar pela porta, enquanto vou correndo pedir-lhe a benção. Às vezes, recolhido em lembranças, choro, como ela chorava quando ouvia Luiz Gonzaga e lembrava do tempo em que morava na roça. É o que resta aos herdeiros da saudade.

Miscelânea

- Estou lendo, entusiasmado, um livro que me fora indicado ainda no ensino médio, pelo mestre Francisco Panajotes - professor de matemática: O Romance das Equações Algébricas. Muito bom.

- Atualmente ouço, estudo e compilo a obra de Caetano Veloso.

- Filme trivial, clichê, mas que me agradou: Letra e Música

- Alguém aí já sentiu o peso de toneladas quando tenta sorrir?

O amor platônico

Lembro com certo langor dos amores passados. Um deles, especificamente, amor irrealizado e platônico, é como se fosse uma relíquia que guardo em mim, perfeito. Existem esses amores. Amores que nos negamos a consumar, medrosos de findá-los.

Ouvindo blues, tomando vinho… É inevitável a ressurreição das cenas daquela paixão não declarada e talvez por isso, irrealizada. Ressalte-se aqui a importância da palavra “talvez”.

Eis que inevitavelmente busca-se o êxtase trazido pelas frustrações. O apaixonado gosta da melancolia. Basta revirar uma gaveta e lá está uma carta, uma foto para lembrar aquele ente intocável por opção - masoquista desejo. Na foto, vejo-a criança. Mas, eu sei, não está muito diferente de hoje. Linda.

Admiro a nascente de seus cabelos, a bochecha rosada, o sorriso casto. É incrível como o amor platônico, o amor de infância, conserva uma fisionomia para sempre. Ainda hoje, ela não sabe, vejo-a com a mesma aura impúbere de anos atrás.

Morreremos. E certamente essas palavras poderão ser repetidas dias antes de nossas mortes. O amor platônico é isso, é eterno, mas inalcançável.

P.S.: Texto piegas, pérfido, ordinário e impraticável.

Marcinha

Marcinha era o tipo de mulher que nasceu para vestir vermelho. Na verdade, o vermelho, como o conhecemos, só existe por causa de mulheres como Marcinha. Faceira, andava sempre provocando os mancebos aqui do bairro: fora já possuída por todos os jovens em sonhos de alcova. Era Marcinha passar na rua e já se sabia que naquele dia o banho da rapaziada demoraria mais uma meia hora que o de costume.

Seu Carlito da Padaria, fiel freqüentador da igreja aos domingos, católico fervoroso, quando via Marcinha passar se benzia sete vezes, olhando fixamente a moça, depois ia para perto de sua santinha rezar “pra num se impregnar com a influência do cão”. Perguntado por que ele vem olhar para ela sempre que sabe de sua passagem pela frente da padaria, mesmo estando ocupadíssimo, Seu Carlito dizia que “o homem de Deus tem a obrigação de sempre encarar o diabo, pois a fé amedronta o tinhoso”. É uma noviça o Seu Carlito.

Não precisa dizer que Marcinha era execrada pela população feminina da área. Afinal, “que tipo de mulher usa essas saias despudoradas mostrando a popa da bunda?”. “Como pode, os peitos pulando assim do decote da blusa?”. “Que acinte ficar aquelazinha com a barriga nua o tempo todo!”. Essas e outras observações eram comuns, quando as mães de família diariamente se reuniam para varrer, de manhãzinha, a porta de casa.

Dita a condição social de Marcinha, ao mesmo tempo a admiração e a corrupção de sua comunidade, o Paraíso Cristão para alguns e o Inferno de Dante para outros, tratemos agora dos atributos que faziam desta senhorita tão, digamos assim, percebida. Primeiro, não se pode negar, como já foi dito, a faceirice dela. Seu andar rebolado, um tanto desdenhoso, seduzia os minimamente dotados de testosterona; isso por ter pernas roliças, nem muito grossas nem muito finas, e bumbum empinado - tudo valorizado pela freqüente saia justa usada por Marcinha.

Não sei se havia ali silicone, mas perfeição não se duvida que Marcinha tinha no busto. Tanto que meu amigo Pelé sempre dizia: “Aquilo não são peitos, são as bolas de tênis que o Guga ganhou o Roland Garros“. Comparações à parte, diga-se que a pele da rapariga era dum moreno fresco, entre o negro e o indígena. Marcinha tinha os cabelos castanhos encaracolados, a boca carnuda, mas contida, o nariz proporcionalmente em harmonia com a boca, e os olhos pretos, duas jabuticabas.

Com toda essa graça, seria deveras desperdício que Marcinha tivesse o pudor de não usar decotes, de rejeitar o vermelho. Foi ela quem inaugurou aqui no bairro esse apetrecho, hoje tão popular, chamado piercing. Naquela época, era como se uma estrela cadente tivesse se alojado no umbigo dela, de tanto que chamava a atenção o piercing de Marcinha - coisa que só se vira, até então, na tevê. Marcinha era, principalmente para a galera que se reunia diariamente na esquina, a prova de que a sensualidade que se via em revistas e na tevê existia.

Ninguém sabia onde (se) aquela ninfa trabalhava ou estudava. Morava sozinha e não havia horário regular para sair de casa, de maneira que não dava chance de haver reuniões prévias para vê-la passar. Um dia, para desespero de todos os machos que na época gozavam a puberdade, uma notícia aterrorizadora surgiu. Marcinha fora encontrada completamente despida, morta, na sala de sua casa. Fora vista a porta de sua casa aberta, e o primeiro curioso que passou percebeu a cena, que mais parecia duma crônica de Nelson Rodrigues. Em seus pelos pubianos via-se sêmen, na boca, o batom vermelho borrado.

Muitos “viúvos” de Marcinha choraram. Muitas mães de família, aterrorizadas, temeram pelos destinos seus e de suas filhas: Havia um tarado no bairro. Seu Carlito da Padaria, talvez destituído de parte dos seus dogmas, no velório da moça, disse a quem agora conta esta história: “Sabe… minha mulher com receio de que o que aconteceu com essa senhorita aconteça com ela e minha filha. Mas, na verdade, não tenho medo. Isso que fizeram com ela só aconteceu porque ela era ousada demais pra esse mundo. Isso foi um aviso…”.

O Nublado

Qual o segredo do nublado? Manto que exclui a luz da Terra, membrana mantenedora das solidões aqui.

Espelho em que nos vemos em alma triste.

O nublado é a sombra evitando o azul, é a melancolia necessária esporadicamente à consciência. A antítese sem a qual a claridão inexiste.

A moça que mascava chiclete.

A moça era loira, tinha cabelos escorridos, olhos claros e pode-se dizer que era magra. Mascava chiclete e vestia-se modernamente, com a calcinha (ou seria cueca?) aparecendo, autorizada pela calça de cintura baixa. Tinha 21 anos, e estava sendo entrevistada pelo apresentador do programa de TV. Era da platéia mesmo - afinal, o marketing já descobriu que nós, anônimos, queremos ser celebridades de qualquer maneira. Eis que o apresentador indaga: “O que você gosta de fazer?”. Entre uma mascada e outra no chiclete, ela respondeu com ar faceiro: “Ir pra balada”.

“Ir pra balada” é o que nós, jovens, gostamos de fazer. Curtir, beber, cheirar, beijar, dançar, transar, são alguns dos verbos que estão embutidos no conceito de “ir pra balada”. A expressão nos define bem; seres apólogos do irracionalismo, do instinto, do prazer. Somos hedonistas e narcisistas ao extremo.

Há poucos dias vimos alguns de nós sendo presos por espancar (mais um verbo!) uma mulher. Li que eles voltavam da balada, e que bateram na mulher por pensarem ser uma prostituta.

Antes, “balada” significava poema cantado, canção, hoje usamos a palavra para expressar nossa perversão de valores. Há quem pense que com este texto declaro minha admiração a uma sociedade rígida, excessivamente admiradora de pudores e regras. Ao contrário, apenas concordo com o filósofo grego Platão, quando escreveu em A República:

“Minha suposição é que a tirania só pode resultar da democracia e de nenhuma outra forma de governo: a mais severa e cruel escravidão proveniente da máxima liberdade.”

,

"Fiz de mim o que não soube,
E o que podia fazer de mim não o fiz.
O dominó que vesti era errado.
Conheceram-me logo por quem não era e não desmenti, e perdi-me.
Quando quis tirar a máscara,
Estava pegada à cara.
Quando a tirei e me vi ao espelho,
Já tinha envelhecido."
Álvaro de Campos