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A fome de José.

José chegou em casa como sempre chegava em outros dias. Ficou todo o expediente aturando seu sogro na empresa, “aquele velho ranzinza”. Desde que se casara com Brigitte suportava aquela rotina cansativa, estafante. Não fisicamente, pois passava o dia todo numa sala com ar-condicionado, frigobar e sentado numa cadeira confortabilíssima. Contudo, José tinha a moral destroçada por ter que bajular um homem avaro e esnobe. Fazer elogios inúteis, obedecer cegamente aos devaneios de alguém que julgava um idiota.

A situação de José era complicada, pois não via como se afastar de seu sogro sem se separar de Brigitte. O casamento é um contrato que abarca não apenas um acordo nupcial, mas toda uma gama de obrigações sociais e econômicas. Casar-se com Brigitte foi assinar uma promissória com o velho.

Pois bem. Naquele dia aparentemente chato, como os demais, José chegou e viu sua mulher deitada no sofá branco da sala, lendo um livro. Brigitte era uma patricinha, nunca deixou de ser; mas na cena que seu marido então a via parecia estar desfeita aquela aura fútil que lhe era peculiar. Estava com uma camisola bege, sem maquiagem no rosto, e os cabelos loiros e lisos espalhados pelo branco do sofá.

Eis que José viu a mulher dos seus sonhos ali. A mulher que lia em romances, quando ainda adolescente. Aproximou-se dela, e beijou-lhe o pescoço, sentindo a falta do perfume que era comum usar. Estranhando, novamente cheirou o pescoço dela, e, pela primeira vez, sentia o verdadeiro perfume de Brigitte. Ela sorriu com as cócegas que o nariz dele fez.

Daí para o beijo foi pouco. José, um animal faminto, que nunca tinha possuído aquela Brigitte, fez questão de sentir cada parte daquele corpo em seus lábios. Roçava sua pele na pele dela como se quisesse misturá-las. Estava louco, e assim possuiu Brigitte: faminto de suas pernas, do púbis, do umbigo, dos seios, da boca. Naquela noite, José perdera efetivamente a virgindade: fez o sexo divino, teve o gozo indizível.

Tudo isso foi-me dito, numa mesa de bar, pelo próprio José. Hoje, ele mora só, num apartamento simples, sem luxo. Não tem mais o sogro para bajular nem as obrigações sociais exigidas pelo matrimônio. Sua família e alguns de seus amigos dizem que não deveria ter se separado de Brigitte, mulher bonita e rica. Mas José se sente melhor atualmente, apesar de estar desempregado e sem a pompa do passado. Aquela noite, segundo ele, é o único momento de que sente saudade, mas por tudo ter sido o que não era. E foi ali, quando Brigitte se fantasiou, que ele percebeu sua inadequação àquele mundo.

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"Insanidade é fazer a mesma coisa uma e outra vez e esperar resultados diferentes."
Einstein