A moça que mascava chiclete.
A moça era loira, tinha cabelos escorridos, olhos claros e pode-se dizer que era magra. Mascava chiclete e vestia-se modernamente, com a calcinha (ou seria cueca?) aparecendo, autorizada pela calça de cintura baixa. Tinha 21 anos, e estava sendo entrevistada pelo apresentador do programa de TV. Era da platéia mesmo – afinal, o marketing já descobriu que nós, anônimos, queremos ser celebridades de qualquer maneira. Eis que o apresentador indaga: “O que você gosta de fazer?”. Entre uma mascada e outra no chiclete, ela respondeu com ar faceiro: “Ir pra balada”.
“Ir pra balada” é o que nós, jovens, gostamos de fazer. Curtir, beber, cheirar, beijar, dançar, transar, são alguns dos verbos que estão embutidos no conceito de “ir pra balada”. A expressão nos define bem; seres apólogos do irracionalismo, do instinto, do prazer. Somos hedonistas e narcisistas ao extremo.
Há poucos dias vimos alguns de nós sendo presos por espancar (mais um verbo!) uma mulher. Li que eles voltavam da balada, e que bateram na mulher por pensarem ser uma prostituta.
Antes, “balada” significava poema cantado, canção, hoje usamos a palavra para expressar nossa perversão de valores. Há quem pense que com este texto declaro minha admiração a uma sociedade rígida, excessivamente admiradora de pudores e regras. Ao contrário, apenas concordo com o filósofo grego Platão, quando escreveu
“Minha suposição é que a tirania só pode resultar da democracia e de nenhuma outra forma de governo: a mais severa e cruel escravidão proveniente da máxima liberdade.”






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