Algumas palavras para Dona Marina
Família não se escolhe. Alguns têm a sorte de ter uma tia bacana, despojada, e que entende todos os erros e vontades das gerações mais novas que a dela. Outros odeiam aquela tia que sempre evitam encontrar, pois querem fugir do achaque cafona, repleto de perguntas e afirmações que desanimam os mais bem-humorados espíritos. Não tive esse problema com minha avó, mulher de língua ferina, espirituosa, mas bondosa, de coração mole.
Minha avó visitava minha casa, quando ainda eu era criança, todos os domingos. Domingo que ela não viesse não era domingo – e quando aqui estava em outro dia, virava domingo mesmo uma enfadonha segunda-feira. “Bença vó!”, era a saudação de praxe sempre que ela chegava, e, após isso, beijar-lhe a mão enrugada, numa demonstração de afeto que ainda hoje lembro nos meus lábios.
Todo mês, sem falta, ela trazia cinco reais para mim. Dinheiro que saía do salário mínimo da sua aposentadoria: Eu fazia planos durante todo o mês já pensando naquele ordenado. Além disso, cocadas, iogurte e batata eram seus presentes semanais. Sabedora do meu prazer em comer batata-frita, trazia-as ela para minha mãe fritar, e nós, crianças peraltas que éramos, comíamos sempre antes do meio-dia, eu e ela, enquanto minha mãe reclamava que nada sobraria para o almoço.
Recordo as vezes em que ela impedia as palmadas de meu pai, ou de quando ele brigava comigo, sem estar na presença dela, e eu dizia que iria morar com ela. Quando a visitava, comia e bebia do bom e do melhor, além de querer me fazer mil vontades que superavam até minhas noções de luxo. Lembro do seu cheiro, dos seus vestidos sempre floridos, do seu cabelo pintado e nunca branco.
As avós são deusas. Conseguem-nos o respeito sem que lhes tenhamos medo. Um pedido de vó é uma ordem – que temos prazer em cumprir. Ao mesmo tempo somos seus reis e seus súditos – curiosa relação. Faz alguns anos já que Dona Marina faleceu, mas ainda hoje a vejo entrar pela porta, enquanto vou correndo pedir-lhe a benção. Às vezes, recolhido em lembranças, choro, como ela chorava quando ouvia Luiz Gonzaga e lembrava do tempo em que morava na roça. É o que resta aos herdeiros da saudade.






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