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Existenciando

Acho em mim um incômodo apático pelas coisas. Pelas pessoas inúteis, cheias de sentimentos farsas, ressentimentos safados. Enfadonho mundo, em que vivem criaturas mal-criadas, objetos-espíritos, banalidades.

Aprendemos a comer as mulheres, as mulheres aprenderam a serem comidas. Asquerosa cadeia alimentar que nos domina. E ainda existem poetas que falam de amor…

Anseio vomitar a catástrofe que se formou dentro de mim, um realismo pessimista que desesperança-me. Parece que uma tropa marcha em meu estômago: a guerra está próxima. Sutil engasgo de uma vida indigerível.

E então me chamam de descrente, me olham como um pérfido conspirador. “Onde está Deus naquele homem?”. Sugiro aos religiosos a exaltação da bondade, do raciocínio, da coerência — e não o dobrar-se ante uma arrogância despótica.

* * *

“Sou vil, sou reles, como toda a gente
Não tenho ideais, mas não os tem ninguém.
Quem diz que os tem é como eu, mas mente.
Quem diz que busca é porque não os tem.
É com a imaginação que eu amo o bem.
Meu baixo ser porém não mo consente.
Passo, fantasma do meu ser presente,
Ébrio, por intervalos, de um Além.
Como todos não creio no que creio.
Talvez possa morrer por esse ideal.
Mas, enquanto não morro, falo e leio.
Justificar-me? Sou quem todos são…
Modificar-me? Para meu igual?…
— Acaba lá com isso, ó coração!”

Barrow-on-Furness, Fernando Pessoa.

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"No Museu Dos Vencidos estão reunidos todos os papeizinhos com os discursos de agradecimento não lidos pelos perdedores de todos os prêmios."
Michel Melamed