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Marcinha

Marcinha era o tipo de mulher que nasceu para vestir vermelho. Na verdade, o vermelho, como o conhecemos, só existe por causa de mulheres como Marcinha. Faceira, andava sempre provocando os mancebos aqui do bairro: fora já possuída por todos os jovens em sonhos de alcova. Era Marcinha passar na rua e já se sabia que naquele dia o banho da rapaziada demoraria mais uma meia hora que o de costume.

Seu Carlito da Padaria, fiel freqüentador da igreja aos domingos, católico fervoroso, quando via Marcinha passar se benzia sete vezes, olhando fixamente a moça, depois ia para perto de sua santinha rezar “pra num se impregnar com a influência do cão”. Perguntado por que ele vem olhar para ela sempre que sabe de sua passagem pela frente da padaria, mesmo estando ocupadíssimo, Seu Carlito dizia que “o homem de Deus tem a obrigação de sempre encarar o diabo, pois a fé amedronta o tinhoso”. É uma noviça o Seu Carlito.

Não precisa dizer que Marcinha era execrada pela população feminina da área. Afinal, “que tipo de mulher usa essas saias despudoradas mostrando a popa da bunda?”. “Como pode, os peitos pulando assim do decote da blusa?”. “Que acinte ficar aquelazinha com a barriga nua o tempo todo!”. Essas e outras observações eram comuns, quando as mães de família diariamente se reuniam para varrer, de manhãzinha, a porta de casa.

Dita a condição social de Marcinha, ao mesmo tempo a admiração e a corrupção de sua comunidade, o Paraíso Cristão para alguns e o Inferno de Dante para outros, tratemos agora dos atributos que faziam desta senhorita tão, digamos assim, percebida. Primeiro, não se pode negar, como já foi dito, a faceirice dela. Seu andar rebolado, um tanto desdenhoso, seduzia os minimamente dotados de testosterona; isso por ter pernas roliças, nem muito grossas nem muito finas, e bumbum empinado – tudo valorizado pela freqüente saia justa usada por Marcinha.

Não sei se havia ali silicone, mas perfeição não se duvida que Marcinha tinha no busto. Tanto que meu amigo Pelé sempre dizia: “Aquilo não são peitos, são as bolas de tênis que o Guga ganhou o Roland Garros“. Comparações à parte, diga-se que a pele da rapariga era dum moreno fresco, entre o negro e o indígena. Marcinha tinha os cabelos castanhos encaracolados, a boca carnuda, mas contida, o nariz proporcionalmente em harmonia com a boca, e os olhos pretos, duas jabuticabas.

Com toda essa graça, seria deveras desperdício que Marcinha tivesse o pudor de não usar decotes, de rejeitar o vermelho. Foi ela quem inaugurou aqui no bairro esse apetrecho, hoje tão popular, chamado piercing. Naquela época, era como se uma estrela cadente tivesse se alojado no umbigo dela, de tanto que chamava a atenção o piercing de Marcinha – coisa que só se vira, até então, na tevê. Marcinha era, principalmente para a galera que se reunia diariamente na esquina, a prova de que a sensualidade que se via em revistas e na tevê existia.

Ninguém sabia onde (se) aquela ninfa trabalhava ou estudava. Morava sozinha e não havia horário regular para sair de casa, de maneira que não dava chance de haver reuniões prévias para vê-la passar. Um dia, para desespero de todos os machos que na época gozavam a puberdade, uma notícia aterrorizadora surgiu. Marcinha fora encontrada completamente despida, morta, na sala de sua casa. Fora vista a porta de sua casa aberta, e o primeiro curioso que passou percebeu a cena, que mais parecia duma crônica de Nelson Rodrigues. Em seus pelos pubianos via-se sêmen, na boca, o batom vermelho borrado.

Muitos “viúvos” de Marcinha choraram. Muitas mães de família, aterrorizadas, temeram pelos destinos seus e de suas filhas: Havia um tarado no bairro. Seu Carlito da Padaria, talvez destituído de parte dos seus dogmas, no velório da moça, disse a quem agora conta esta história: “Sabe… minha mulher com receio de que o que aconteceu com essa senhorita aconteça com ela e minha filha. Mas, na verdade, não tenho medo. Isso que fizeram com ela só aconteceu porque ela era ousada demais pra esse mundo. Isso foi um aviso…”.

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"Insanidade é fazer a mesma coisa uma e outra vez e esperar resultados diferentes."
Einstein