Um escritor para Raimundo.
A primeira desilusão amorosa é como uma seca que assola uma lavoura fértil, ressequindo a terra, murchando folhas, frutos e flores. Minguando a beleza verde, alastrando um cáqui morto, triste. Isso foi o que Raimundo falou, quando tomávamos café observando a chuva cair e os carros passarem na Avenida Getúlio Vargas. “Ainda hoje não me recuperei da praga que me rogaram”, dizia.
“Não sei mais amar, não sei confiar, desaprendi a ver profundidade nas mulheres – o solo onde jogam-se as sementes de sentimento, em mim, está infértil.”
Raimundo é um companheiro esporádico de café, que admiro pela sinceridade em expressar suas dores, rancores e louvores. Namorou mais de três anos com uma moça, amou-a, como sempre me dizia, e eis que ela se apaixonou por um outro mancebo, vindo a largar nosso amigo com um sentimento que definhou envenenando, como se vê, a esperança de Raimundo.
“Que tipo de seres somos, que temos esse dom perverso de tomar a parte pelo todo? De generalizar o individual, imprecando em almas díspares belezas e desgraças iguais?”
“E o pior, o que me desgraça, é que a culpa da paixão que ela disse-me sentir por outro é mais minha que de qualquer um. Esse é meu tapa na cara, minha condenação.”
Raimundo não se considera feliz. Desde esse último encontro nosso, a solidão e a apatia tomavam-lhe conta do espírito. Por telefone, disse-me que vive hoje “ironizando o amargor do coração, e tentando não perpetuar sua doença”. Não entendi ao certo o que quis dizer com isso, mas, certamente, as percepções e angústias de Raimundo são relevantes, e dariam uma boa obra na mão de um bom escritor.





