A voz da tempestade.
Do dia anterior, chuvoso e cinza, restara a terra e as folhas das plantas, inda úmidas da saraivada de água na madrugada caprichosa que foi aquela. Algumas madrugadas são assim, vaidosas – inóspitas aos transeuntes, ao mesmo tempo uma pervertida, que quer ver os namorados demorando no prazer carnal. A que tinha passado era dessas: com trovões e relampejos, com açoites da chuva, que estalava em seus escravos, o chão, a pedra.
Observando os estragos de um temporal, é de se pensar que Deus é um artista. Pinta, despinta, cria absurdos e forja belezas inapreciáveis, e por isso sublimes. Descrê em Deus, e caí no absurdo que é o inexplicável visto, pior que o indizível sentido.
A musa da cidade, a Avenida Maria Quitéria, ficou corrompida, com árvores lascadas e fios caídos ao chão. A Avenida Maria Quitéria é a avenida rainha da cidade; reina entre a Getúlio Vargas e a Presidente Dutra, cortando as duas numa ousadia implacável – afinal, é esse o papel das mulheres. Mas naquele dia a Maria Quitéria estava estuprada, o temporal fora cruel.
Os passantes, de manhãzinha, iam cuidadosamente se desviando dos pedaços de destruição no canteiro central da avenida. Só não podiam se desviar dos pingos d’água caídos das árvores, néctar indispensável à construção da imagem lúgubre que aqui se narra. Gorros, casacos, mãos encolhidas nos bolsos.
O cenário pós-temporal é digno da quinta sinfonia de Beethoven. É a lembrança ao homem que o mundo acabará um dia, que iremos definhar na terra, e que a terra também pode definhar. “Vocês são efêmeros e vulneráveis!”, diz a tempestade.






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