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Desabafo dum narcisista

Sou um jovem metropolitano, um rapaz moderno, atual e descolado. Enfim, estou por cima. As meninas, quando me vêem, cochicham entre si: “Ele é tudo!”. Isso mesmo: eu sou tudo. O mundo está em mim, o sol sou eu, o universo me deve muita coisa, de maneira que essa baboseira de amor ao próximo, coisa que me falam desde quando eu era criancinha, é nada menos que um mecanismo para os fracos sugarem pessoas assim, como eu.

Me percebo mais bonito a cada dia que acordo: meus braços fortes, meus cabelos sedosos, meu sorriso de vencedor. Sou perfeito. Tenho todas as mulheres que quiser, algumas para o sexo, por saberem transar, outras apenas para desfilar nos shoppings e festas. Se você quer saber, as mulheres são fáceis de conquistar. Tenho um carro, uma casa de praia, sou bonito e gostoso (elas que dizem isto) e tenho um papo legal.

Aliás, ter um papo legal é fundamental. Não se trata de ser careta, falar dessas coisas idiotas, nerds. Não. As mulheres gostam de rir, gostam de caras alegres. O homem ideal para a mulher é aquele cara que ela chama de bobo e lhe dá um tapinha nas costas, depois dele ter falado algo engraçado e ousado no ouvido dela. Sim: deve-se ser ousado também.

Parece uma fórmula matemática: ousadia + riqueza + beleza + simpatia = conquista. Eu sou um garanhão. Eis a felicidade, que é ser desejado pelas mais belas e sonhado pelas demais. Mas infelizmente, talvez, você que agora lê este texto tenha nascido pobre, feio, tímido e reprimido. O azar é seu. O que lhe resta é torcer para que alguém lhe queira – e que não apareça em seu caminho um deus grego como eu. Como disse o Quincas Borba: “Ao vencedor, as batatas”.

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"No Museu Dos Vencidos estão reunidos todos os papeizinhos com os discursos de agradecimento não lidos pelos perdedores de todos os prêmios."
Michel Melamed