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Do namoro efêmero

Tomava café na livraria quando fitou-a. Seu olhar penetrou o vapor expelido da xícara para esbarrar-se naquela figura. Morena, negros cabelos ondulados, calça jeans, blusa simples. Nenhuma pintura, mais magra do que gorda – e com óculos de grossa armadura preta, o que conferia-lhe certo ar intelectual.

Desapercebida daquele espectador, ou fingindo ignorá-lo, atinha seu olhar num livro, lendo palavras que percebia-se ser de Fernando Pessoa.

Uma leitora de Fernando Pessoa certamente seria prepotente e depressiva. Porém, não se lhe podia negar o título de bela. Bela em sua simplicidade. Não mais que a naturalidade com pitadas de requinte para agradar àquele admirador. A beleza é relativa, está também em quem a contempla, isto é óbvio.

Eis que num momento invulgar, talvez no lapso de leitura dum verso, a moça erguera os olhos, e seu olhar entrelaçara-se com o olhar do já referido mancebo. Poderíamos dizer muito daquele encontro, pois fácil é discorrer sobre os momentos, como aquele, eternos.

Desconhecemos o quanto de verdadeira paixão há numa atração assim, efêmera. Quantas pessoas amam-se, ou se dispõem a amar, em menos de um segundo? A rotina é cheia desses namoros de contato rápido e separação eterna. Quanto àquele casal, durou uma xícara de café – ou a fila dum caixa de livraria.

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"Insanidade é fazer a mesma coisa uma e outra vez e esperar resultados diferentes."
Einstein