Header

O Passado em chamas

Ter sido criança já vale a pena de ter nascido. Em minha infância fui feliz e poeta – aprendia mais, cria mais, chorava mais. Dentre as coisas que lembro saudosamente está a mangueira do quintal da minha casa. Árvore frondosa, que derramava uma sombra fresca no chão de terra.

Aquele pé de manga é o mascote da minha criancice. Sob ele rolaram bolas de gude multicores, por vezes em disputas acirradíssimas com amigos daquela época. Suas galhas (ainda hoje tenho na memória seus formatos), eram por mim descobertas uma a uma, numa desbravação mágica, que me fizeram, um dia, chegar ao olho da planta – e contemplar minha casa, minha rua e suas redondezas panoramicamente.

Parece que a mangueira do quintal da minha casa ensinou-me, ali, no topo, a sentir-me poderoso. Mas não pouco ela me derrubou, ensinando-me a humildade.

Quantas vezes serviu-me de abrigo – por horas até – para curar os choros herdados de reclamações de meus pais. Quantas vezes ali homiziei-me das perseguições do já hoje falecido Paquito; cachorro vira-lata que eu vivia pirraçando. Quantas formigas assassinei por dilacerarem as folhas do meu querido pé de manga.

Agora, que tenho pernas crescidas e duras, com mãos grandes mas imperitas, vejo-me desencorajado de trepar no pé de manga. Entrevado e inábil, sinto a impotência de não mais ser criança. Por fim, eis o destino que tivera meu pé de manga: a fogueira de um São João.

Nenhum comentário, Comente ou Ping

Comentar “O Passado em chamas”

"No Museu Dos Vencidos estão reunidos todos os papeizinhos com os discursos de agradecimento não lidos pelos perdedores de todos os prêmios."
Michel Melamed