Senhor Deus dos desgraçados…
Fiz uma visita acadêmica a uma prisão. Sim, uma cadeia, lugar onde pessoas são detidas, têm suas liberdades cerceadas em virtude de cometimentos de ilícitos penais. Uma experiência assustadora, com cenas de horror dignas de passagens apocalípticas.
Lá a penumbra prevalece mesmo ao meio-dia, derramando um ar sinistro num ambiente que, feito para 16, comporta 112 pessoas. Observe-se, a propósito, que a palavra “pessoa” aqui talvez esteja mal empregada: aquele lugar descaracteriza a condição humana daqueles homens; antes, torna-os algo inferior ao mais desprezível animal. Nem a máxima perfídia criminosa merece tal repreensão.
O cheiro era de mofo, misturado com suor e sabe-se lá mais o quê. Horas depois de sair dali, ainda sentiria entranhado em minhas narinas o odor da condenação ao descaso. Ao olhar para as celas, via um plano de fundo negro: o corpo dos presos e as paredes era tudo uma só coisa, e só podia se ver, além disso, os olhos junto às grades observando a nós, visitantes, que certamente éramos o maior acontecimento dos últimos dias. Olhares assustados ou curiosos, invejosos, indescritíveis.
Estavam amontoados, a despeito de haver doentes em seu meio. Alguns estavam no saguão imediato às quatro celas (cada uma com capacidade para quatro pessoas). Neste lugar havia menos escuridão, era possível ver o corpo e as feições dos detentos. Um lia a Bíblia, outro batia levemente com a cabeça na parede e outro dizia, num tom moribundo: “Ai, meu Deus, eu quero minha liberdade!”. Em sua grande maioria, negros, magros, mórbidos. A escravidão, pensei num dado momento, ainda existe, aquilo era uma senzala.
Aqueles homens geralmente não tinham escolaridade, nunca trabalharam. Seus pais já morreram, ou são viciados em alguma droga (lícita ou ilícita), assim como eles próprios. Quase todos têm entre 18 e 24 anos, não tinham moradia fixa nem perspectiva de crescimento social, menos ainda apoio afetivo de alguém.
Por fim, termino este texto assumindo a incompetência de descrever tão pavoroso cenário, que de vez em quando me vem à mente como pancadas na consciência; e cito Castro Alves, que, infelizmente, tem seu poema Navio Negreiro atual, tantos anos depois de criado:
“Senhor Deus dos desgraçados!
Dizei-me vós, Senhor Deus!
Se é loucura… se é verdade
Tanto horror perante os céus?!”





