Entre aspas
Coitadas das aspas: são cadeados que travam as mentiras. Quando surge uma palavra feia, inconveniente, malandra, as aspas fazem o papel sujo de contê-la. Elas são a maquiagem necessária à nossa escrita imperfeita, ofensiva, precipitada. É o recurso dos que querem dizer o que não lhes pertence. Vil função a de anunciar a cópia, a assunção da inveja por não ter criado o que outrem criou.
As aspas, percebam, são quatro vírgulas voadoras. A vírgula nos fala: Calma! Respire um pouco e continue a leitura. As aspas não falam, gritam. São duas vírgulas no início, malucas, de cabeça para baixo, para que percebamos a indecência do termo que carregam, e duas no final, desesperadas, como se dissessem: Entendeu, idiota? O que aqui se diz é outra coisa e não o que aqui se diz.
Ultimamente tem-se usado as mãos para representar as aspas. Mania besta, que se faz movimentando os dedos indicadores e médios, para cima e para baixo, para fazer entender alguma fala de teor incompetente. Também é comum falar-se que algo deve ser entendido entre aspas, ou seja, incompletamente, exacerbadamente, enfim, de outra maneira que não a dita.
Mas esses abutres, que sobrevoam as palavras mortas do seu sentido ou contexto natural, dizem muito do que há ao nosso redor. Entre aspas estão as coisas da vida, os amores, as relações, a humanidade. A verdade, a seriedade, as amizades. Os valores, as culturas, os deuses (até eles!). As leituras, as músicas, as artes. Sim: a existência está entre aspas.






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