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Tempo

Tenho uma relação privada com o tempo. Sofro de uma certa atração pelos movimentos dos relógios – a mudança dos dígitos, a vagarosa construção da circunferência pelos ponteiros, seus tics e tacs. Grande exemplo de calma perfeita.

Debate filosófico-didático.

- E aí, beleza?

- Legal.

- E aquele caso, como tá?

- Velho, esquece isso. Só quero uma dica pra não cair no sentimentalismo piegas da rejeição. Uma droga, um remédio, qualquer porra…

- Caralho (risos). Se ligue: vamo num boteco que eu descobri faz pouco tempo. Uísque e ninfetas vão te (nos) fazer bem.

[...]

- Ok, ok. Apesar d’eu perceber que essa é sua fórmula mágica pra todas as mazelas, vou confiar…

Quem?

Vamos discutir de quem é a culpa. Vamos.

1 – É do miserável favelado, sem perspectiva, sem alicerce, que é destinado à criminalidade, e que instintivamente faz guerra com a polícia;

2 – É do policial, fazendo guerra com o miserável favelado, trocando humilhações, tiros, corpos, etc.;

3 – É do traficante, que lucra milhões e não mora no morro, não usa chinelo, nem camisa de propaganda;

4 – É do usuário, que não humilha nem é humilhado, que não bate nem apanha. E faz parte de “uma franja da sociedade que pretende, a um só tempo, ser beneficiária de todas as vantagens do estado de direito e de todas as transgressões da delinqüência.“.

Façam suas apostas.

“Eu hoje estou cruel, frenético, exigente;
Nem posso tolerar os livros mais bizarros.
Incrível! Já fumei três maços de cigarros
Consecutivamente.

Dói-me a cabeça. Abafo uns desesperos mudos:
Tanta depravação nos usos, nos costumes!
Amo, insensatamente, os ácidos, os gumes
E os ângulos agudos.”

Cesário Verde

Do belo verdadeiro.

A vida humana: eis o que há de mais sublime a ser contemplado. Tanto nos ocupamos com as paisagens, com as aparências brutas; mas a vida humana é a verdadeira beleza. Olhares, sorrisos, gestos, palavras – aí estão as expressões a serem admiradas: manifestações de sentimento que geram sentimentos e outras manifestações em nós. E de observadores passamos à qualidade de observados. De artistas a público.

A obra exposta pelo homem em si mesmo – que nada mais é que sua vida exteriorizada – gera uma confluência de idéias exclusivas a nós, humanos. Interação ímpar.

É provável que muitos não me entendam necessariamente: ver alguém cheio da tal vida humana é pré-requisito para a absorção destas palavras.

Da música.

Há a música que diverte, que traz prazer efêmero: esta não é arte. Se muito, ela causa tesão, mas não o sustenta no espírito. A música que é arte, é universal, atemporal, sensibiliza permanentemente a todo homem que esteja disposto a entendê-la. Assim, Beethoven nos comove, Billie Holiday nos leva ao sublime, e Chico Buarque nos instiga.

Elogio à corrupção do espírito.

Eis que me derrubo no abismo das vulgaridades. Cervejas, noites, danças. Suores, carnes, urros. Se religioso me considerasse, diria qual o Boca do Inferno:

Ofendi-vos, Meu Deus, bem é verdade,
É verdade, meu Deus, que hei delinqüido,
Delinqüido vos tenho, e ofendido,
Ofendido vos tem minha maldade.

Mas, em sendo leigo, apenas recolho-me ao não-arrependimento que é privilégio dos pecadores.

A moça do feriado.

Sentou-se ao meu lado uma puta. O coletivo já vazio, o cobrador ensaiando um sono, a cidade vazia, feriado, quase meia-noite. Sabe-se lá para onde ia a moça, com uma blusa vermelha, quase um sutiã, e uma saia que era uma flanela envolvendo sua cintura. Tinha a cara emburrada, e era bonita, apesar de vulgar. Não era muito diferente de uma mulher comum – apenas tinha em si a assunção do sexo como arma para aquisição de poder, de dinheiro, de vida. Assumir isso é o que a diferenciava de boa parte das mulheres.

Desprezibilidade

Geralmente acordo, passo a roupa a ser usada no dia, faço-me a barba e os demais procedimentos de assepsia pessoal. O café da manhã é, invariavelmente, dois pães, um copo de suco e, vez ou outra, um pedaço de alguma fruta. Além de alguns goles de café. Neste processo meus ouvidos estão sensíveis, prefiro olhar para seres inanimados, e só penso em grandes questões filosófico-existenciais: por isso a rechaça a tudo o que é humano, inclusive eu.

A profecia de Quinzinho.

“Tá tudo diferente na roça. Só o pobre que não muda. É sol e chuva e nóis aqui labutando… acreditando que um dia o céu vai abrir e dividir o mundo no meio… e jogar os home bom trabalhador prum lado… os mau vagabundo pro outro, jogado no meio do inferno. Mas acho que nesse mundo de meu Deus isso nunca vai acontecer. Só no outro.”

*Do filme Tapete Vermelho

Next,

"Considero a crueldade e o assassínio em massa coisas más e desejava que todos concordassem com a minha opinião. Isto não evita que outros desejam tanto a crueldade como o assassínio em massa, tal como demonstra o procedimento de todos os que ocupam posições de mando e da maioria da humanidade."
Bertrand Russel