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Apatia

Vivo um momento de ócio tacanho. Não realizo qualquer atividade produtiva, intelectual ou fisicamente. Talvez o que tenha feito de mais importante nas últimas três semanas fora a ingestão de algumas doses de uísque e mais um ou outro flerte com alguma rapariga.

Nada de Bossa Nova ou Foucault – e ainda atraso a apreciação de Fellini. Além de tudo, desinteresso-me por escrever. Até as doses cotidianas de café têm diminuído.

Apatia que não me incomoda, mas é insustentável.

Respondi à altura o seu olhar de soslaio – grande farsa que deve ser a paquera na high society. Ulteriormente, não pude deixar de tilintar minha taça de champagne na sua: um brinde sensual de olhos nos olhos.

E seu vestido verde foi ao chão. Seu baton sublimou. E os cabelos tiveram a necessidade de novo penteado – minhas mãos foram o pente.

O cravo e a rosa.

Vaidade. Sentimento que foi legado ao homem prevenindo sua autodestruição. O amor nos dá a proteção de outrem, a vaidade nos dá a proteção de nós mesmos. É ela que caça os manjares que irão alimentar nosso ego, burlando a percepção de que somos insignificantes. Sem ela cada impotência seria um açoite, cada imperfeição um tabefe.

Por vezes a vaidade se manifesta cruelmente, sendo capaz de rechaçar o amor alheio. Fina relação que existe entre ele e ela. Ela é uma dama cheia de soberba, egoísta, enquanto ele é um coitado apaziguador, piedoso. Ela humilha, ele sofre. Ela rechaça para regozijar-se, ele se prostra para servir.

Estúpidos

A ambição do homem deve ser tida sempre como faculdade a ser utilizada com sutileza. Ter três ou quatro amantes, por exemplo. Não é para qualquer glutão, mas para os calmos estrategistas que nem sempre se deixam levar pela pecaminosidade.

Ganhar dum amigo alguma coisa também se enquadra nesse contexto. Deve-se sacaneá-lo de leve, colocar o pé para ele cair e esconder depois, estapear sua cara apenas no escuro. É perigoso ser espalhafatoso ao fazer uma safadeza.

Olho em minha volta e encontro uma súcia de ambiciosos imprudentes: todos querendo atentar contra mim explicitamente, sem cuidados. Estúpidos.

Senil

Sou velho. Como negar meu tédio com as coisas comuns da vida? Coisas que parecem repetidas, mesmo sendo inéditas. Asco do beijinho-do-lado-e-do-outro burguês – máscara afetiva dos que se querem morder os lábios. Repulsa à contínua repressão dos instintos – oh! Tirem-me daqui as etiquetas, os favores e obrigados: vamos diretamente aos interesses vis.

E ao mesmo tempo xingo o ato sem método, sem arte, sem a complexidade peculiar ao humano. Que despautério comer apenas para matar a fome, viver para sobreviver, pensar só para agir.

Está visto e dito: sou ranzinza.

Fofa

Lembro-me que lá pelos idos de noventa e pouco computador era um bicho com intricados mecanismos de funcionamento, e operá-lo era mais ou menos como pilotar nave espacial japonesa. Naquela época, em que os telefones públicos engoliam nossas fichas, eu estava iniciando minhas investidas púberes, e os bate-papos com a temática “sexo” eram atrativos que substituíam eficientemente as idas ao parque de diversão ou o jogo de bola com a galera da rua.

Certa vez, eu e uns amigos encontramos uma senhorita que tinha o pseudônimo de “Fofa”. Apaixonamo-nos coletivamente por suas pernas, “roliças e bem torneadas”, seus seios, “redondinhos e de bicos salientes”, e seu rosto, “olhos verdes, boca carnuda e nariz afilado”. Descrição inesquecível, que nos fez achar que conversávamos com uma moça mais ou menos parecida com a Luana Piovani.

Creio que esse romance durou algo próximo de duas semanas, com várias declarações apimentadas da moça, inclusive alguns strip-tease, que geravam certo furor concupiscente toda vez que eu ia ao banheiro – o que certamente também ocorria com meus companheiros. Diga-se também da sensação que tomava nossa vaidade: já nos sentíamos homens, sabíamos conversar com as mulheres, e éramos bons nisso, a prova era a abertura que “Fofa” estava nos dando.

Não lembro ao certo o que ocasionou o fim daquele relacionamento, mas lembro que o julgamento dos nossos pais iam no sentido da desconfiança de que “Fofa” poderia ser uma mulher obesa, o que estava sugerido por seu nickname, ou até mesmo um gay que se passava por mulher. Essas possibilidades certamente nos fizeram arrefecer o sentimento que nutríamos por tão empolgante “mulher”.

A (i)lógica do ser

O insuportável da vida é a sua não-obrigatoriedade de ser recíproca. A isso chamamos injustiça.

Ao bem seja pago o bem, ao mal seja pago o mal, ao amor o amor, à paixão a paixão: raciocínio de ação-reação que apenas na física Newtoniana existe, e que os cristãos insistem, ingênuos, em acreditar.

“Lucas de frente encarava
Aquela sociedade
Viu que apesar de passar
Por tanta necessidade
Somente quando roubava
Gozava felicidade.”

*do cordel Prisão e Morte de Lucas da Feira, de Jurivaldo Alves da Silva.

Psicologia dos seios

Existem partes do corpo que, sozinhas, expressam a personalidade de uma pessoa. Nas mulheres é inquestionável que esse papel é exercido principalmente pelos seios. De chofre vem o fato de apenas elas possuírem esta fonte de nutrição propriamente materna – tornando a nós, homens, seres menos sofisticados. É talvez por essa exclusividade que os mancebos querem a todo custo lamber, chupar, morder, acariciar os seios de suas amadas, num sentimento de curiosa ambição.

Pois bem. Há mulheres de seios túrgidos e densos, o que faz logo perceber nelas um ser faceiro e despretensioso, são aquelas que riem fácil, se encantam com o simples. Há os seios pequenos e redondos, que aproximam-se da perfeição esférica, não fossem os bicos salientes, prontos para enrijecer com qualquer estímulo. Esses representam bem a mulher recatada, admiradora das cores neutras, e que só se sentam de pernas cruzadas. Não se pode deixar de citar os seios piramidais, nem grandes nem pequenos, possuidores de um vértice ousado que ameaça a incolumidade dos nossos olhos. Cuidado com as mulheres portadoras de tais apetrechos. Não raro são pérfidas, destemidas e maquiavélicas – perigosa combinação.

Os mais críticos perguntarão dos seios murchos, caídos e enrugados. Seios que mostram a erosão feita pelo tempo na personalidade feminina: representação indubitável da austeridade de caráter, do costume e da adequação às leis da natureza e da vida humana. Por fim, o silicone. O exemplo, nos seios, da falsidade que é cultura no mundo atual. Os seios siliconados são os seios-marketing, são a deturpação do físico tentando alcançar o psicológico, que é inexorável.

O Tédio

Um dos sentimentos mais nobres que o homem pode ter é o tédio. É o desapego às coisas por suas naturezas falhas e irrisórias – um desgosto profundo. Os grandes intelectuais, escritores e pensadores geralmente sofrem de tédio. É como o Edson disse que o Stendhal disse: “Se está entediado, aquilo que tentou sem sucesso agradar-lhe é inferior.”. O mundo não é mais que inferior para os grandes homens.

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"Talvez não seja mais do que o meu sonho...
Esse sorriso será para outro, ou a propósito de outro
Loura débil...
Álvaro de Campos