Fofa
Lembro-me que lá pelos idos de noventa e pouco computador era um bicho com intricados mecanismos de funcionamento, e operá-lo era mais ou menos como pilotar nave espacial japonesa. Naquela época, em que os telefones públicos engoliam nossas fichas, eu estava iniciando minhas investidas púberes, e os bate-papos com a temática “sexo” eram atrativos que substituíam eficientemente as idas ao parque de diversão ou o jogo de bola com a galera da rua.
Certa vez, eu e uns amigos encontramos uma senhorita que tinha o pseudônimo de “Fofa”. Apaixonamo-nos coletivamente por suas pernas, “roliças e bem torneadas”, seus seios, “redondinhos e de bicos salientes”, e seu rosto, “olhos verdes, boca carnuda e nariz afilado”. Descrição inesquecível, que nos fez achar que conversávamos com uma moça mais ou menos parecida com a Luana Piovani.
Creio que esse romance durou algo próximo de duas semanas, com várias declarações apimentadas da moça, inclusive alguns strip-tease, que geravam certo furor concupiscente toda vez que eu ia ao banheiro – o que certamente também ocorria com meus companheiros. Diga-se também da sensação que tomava nossa vaidade: já nos sentíamos homens, sabíamos conversar com as mulheres, e éramos bons nisso, a prova era a abertura que “Fofa” estava nos dando.
Não lembro ao certo o que ocasionou o fim daquele relacionamento, mas lembro que o julgamento dos nossos pais iam no sentido da desconfiança de que “Fofa” poderia ser uma mulher obesa, o que estava sugerido por seu nickname, ou até mesmo um gay que se passava por mulher. Essas possibilidades certamente nos fizeram arrefecer o sentimento que nutríamos por tão empolgante “mulher”.






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