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Interior

Neste momento me encontro numa cidade interiorana do sertão baiano, dessas em que o centro da cidade é marcado por uma igreja, uma praça e uma prefeitura. A paz, a carne de bode e as conversas dos habitantes são as características marcantes do lugar.

Trivialidades…

- Finalmente minha féria vai se adequando aos meus anseios. Só durmo depois das três, e vejo pouco a luz do dia. Sol, nem pensar. Não falta café em casa e aos poucos estou pondo em dia minhas literaturas.

- Peregrino pela WEB, e, sinceramente, não encontro blogs muito interessantes. Talvez esse Tiago Galvão, seja o melhor dos últimos dias. Ele diz: Tenho este blog porque não tenho amigos.

- Gostei do que a Lívia disse no meu último post: A moça não gosta do um que é outro, mas da forma como o homem a transforma em outra.

O gosto do gosto.

A um homem não basta uma mulher que lhe goste, ela tem que gostar de maneira conveniente. Há indivíduos com manias incríveis, defeitos até, que são por eles próprios tidos como grandes virtudes – e ai da rapariga que diga gostar-lhe ignorando aquele peculiar. Às vezes o próprio homem, ao mascarar-se, induz nela um gostar incompatível com o que deseja: eis a moça gostando de um que é outro.

É comum o homem não gostar duma mulher, mas lembrar saudosamente da forma com que ela gostava dele.

Camisa por dentro.

Lembro da minha infância e vejo que o Natal era um dia que exigia certos preparativos por parte da minha família. Todo ano havia a cobrança de minha mãe, dizendo a meu pai que precisava comprar a roupa de Natal dos meninos. E todo ano íamos comprar as roupas, que eram usadas na noite do dia vinte e quatro, mesmo que não saíssemos de casa. Meu cabelo era penteado de lado, e meu pai cobrava de mim que permanecesse com a camisa por dentro da calça, mesmo sabendo que as brincadeiras comuns na infância tornavam impossível o cumprimento da ordem.

Recordo-me de uma árvore de Natal que era torta, pois tinha quebrado o tronco, sendo depois remendada, mas serviu-nos muito até que meu pai comprasse outra – creio até que gostava mais daquela deficiente do que das que a ela sucederam. Sempre tínhamos peru e queijo, daqueles vendidos em cuia, além de panetone, que nunca gostei de comer. Seria incorreto dizer que fazíamos ceia, pois meus pais sempre mostraram certa timidez quando se trata de realizar procedimentos símbolos das famílias tradicionais – a família perfeitinha da novela das oito. Mas tacitamente tínhamos uma confraternização, o que ficava claro pelo menos no fato de meu pai sempre reclamar quando eu ia à casa de alguém na noite de Natal, afinal, Natal é cada um em sua casa.

Além da roupa, sempre ganhávamos presentes de tios ou tias. E confesso a expectativa que sentíamos quanto aos mimos que receberíamos, mesmo quando o ofertante era um parente não muito querido. Nunca cri em Papai Noel, como disse, era um símbolo que meus pais nunca sustentaram em meu espírito. E ria quando ouvia amigos dizendo que ele existia e que à noite ele colocava presentes sob suas camas, quando eles dormiam. Não sei se achava mais patético meus amigos, que acreditavam nisso, ou seus pais, que – eu não tinha dúvida – perdiam tempo iludindo seus filhos.

Mas eu mesmo acreditava no Natal naqueles tempos, era uma data especial, em que tudo parecia diferente. Eis que crescemos e a realidade vai nos tolhendo a capacidade de crer. De qualquer maneira, considero que, pelo menos, é um dia em que as pessoas estão dispostas a confraternizar e solidarizar-se. Alheio às peculiaridades cristãs do evento, estarei em casa, com minha família, com o cabelo penteado de lado e a camisa por dentro da calça, desejando feliz Natal e abraçando a todos quantos for possível.

Todo mundo devia escrever um diário. Ou melhor: todo mundo que, como Arthur Schlesinger Jr., conheceu gente interessante, viveu acontecimentos decisivos e tem sensibilidade para avaliar as pessoas, gosto pelas boas frases e firme compromisso com a fofoca.

Roberto Pompeu de Toledo

Conheço esse tipo. Embusteiro, usa bem as palavras para seus fins escusos. Leu alguns livros, ouviu algumas boas músicas, e já é o intelectual, o poeta. Não é mais que um pulha, um vilão mascarado com frases bem formuladas.

Feira de Santana

Certamente um estrangeiro não verá em minha cidade algo de esplêndido, como quiçá encontrará em outros lugares, num Rio de Janeiro, São Paulo ou na vizinha Salvador. Feira parecerá, por certo, um lugarzinho insosso, sem graça. Sem praias, monumentos ou grandes museus. Com apenas um McDonald’s e um cinema, localizados no único shopping da cidade, seria o pesadelo da maioria dos metropolitanos mudar-se para a Princesa do Sertão.

E, sim, concordo que somos cidadãos provincianos. Que ainda não perdemos o ranço de comerciantes, o histórico ranço de quem quer levar vantagem em tudo. Chegamos a ser uma cidade medíocre até – todos nós, 600.000 habitantes mais ou menos. Acredito na teoria que afirma o feirense como um ser que lucra em sua cidade para esbanjar-se fora. As diversões que encontramos aqui, então, são fugazes, coisa feita para poucas dezenas de indivíduos que ainda não conseguiram se emancipar.

E não obstante isso, amo minha cidade. Gosto de passear pela Avenida Maria Quitéria após a chuva, sentir o cheiro de terra e ver caindo gotículas prateadas de água das caliandras. Tomar café quente na livraria daquele único shopping. Gosto do povo que é enganado e enganador, inocente e pérfido: povo de feira. Gosto porque é a cidade onde nasci, cresci e aprendi a viver, e que toda vez que vejo me alegro e que toda vez que nela chego sou bem recebido por amigos, familiares e desconhecidos.

Não gosto do grupo político de minha cidade. Não gosto de quase toda sua imprensa, também comerciante. Mas de qual outro lugar conheço as ruas e seus atalhos? Onde terei tantas casas para abrigar-me? Onde conheço tantas raparigas? Sem minha cidade não vivo, nem vivo bem. Feira de Santana é minha cidade por obrigação, e por prazer.

Féria

Eis que iniciou-se minha féria. Felizmente, isso ocorre num momento em que minha letargia mental esvai-se. Em pouco mais de um mês pretendo rever alguns amigos ordinários, outros excepcionais, ler algo sobre o Big-Bang e Adão e Eva, ouvir Mozart e Caetano Veloso, trabalhar no meu livro, beber café, uísque, cerveja, vinho e saquê.

Talvez me envolva com alguma rapariga, talvez volte a fazer natação. Quero reler uns contos de Machado, assistir Fellini e uma ou duas dessas minisséries virais e certamente cretinas que se divulga por aí. Talvez não dê tempo para tudo, mas vamos tentar…

Aniversário

Hoje o Café do Dom completa dois anos de existência. Depois de ter abandonado meu outro espaço, por motivos técnicos e por caprichos levianos, criei esse que, me parece, ainda durará algum tempo – isso pelo prazer que tenho em escrever aqui.

Ao todo foram 256 postagens, com aproximadamente 28,300 visitantes únicos (IP’s).

P.S.: Este post é dedicado a todos os visitantes deste Café.

O tempo das pipas.

“Corrupiou! Corrupiou!”, gritávamos todos, sempre que a pipa no céu perdia a rabada e começava a rodopiar como uma louca, trazendo a seu dono uma preocupação imensa, fazendo-o agir como o comandante dum navio em naufrágio, ou melhor, dum avião prestes a se estatelar no chão. Fenômeno fácil de explicar: a pipa, para ficar erguida e estável, necessitava do peso da rabada para compensar a força do vento. Quando a rabada caísse por estar mal amarrada ou por ter sido cortada pela linha de outra pipa a estrutura física estava desestabilizada, e seu piloto perdia o comando.

Aí, além dos gritos dos que competiam para ficar mais tempo no ar, tinha a pressão psicológica dos “perus” (os que não tinham pipas, ou já tinham perdido as suas), que não se cansavam de escarnecer do “corrupiado”. Este, por sua vez, puxava a linha ansiosamente, para não perder sua aeronave. Era como se puxasse um sobrevivente lançado ao mar repleto de tubarões. Emocionantes momentos em que uma criança sentia-se com grande responsabilidade.

Nos tempos de pipa, os céus do bairro ficavam multicores, com arraias, caiais e maranhões realizando piruetas, dançando sob a vontade dos meninos que não cansavam de agitar os dedos, (des)controlando as linhas. As arraias são aquelas retangulares, feitas de papel de seda e com duas taliscas de coco. Os caiais, ou periquitos, são feitos de papel ofício ou qualquer folha de caderno – de baixo custo, não exigiam os caríssimos cinqüenta centavos de uma arraia, nem a ciência necessária para fazer um maranhão. Já este último, recebia esse nome certamente pela forma pentagonal, sugerida pelo formato físico do estado do Maranhão.

Não se pode ignorar a disputa freqüente dos que “temperavam” suas linhas, no intuito de cortar as linhas adversárias. E quanto desespero ver uma pipa que, antes imponente, faceira, repentinamente flutua, descontrolada, até ser perdida de vista, caindo em um telhado ou quintal qualquer. No telhado ela seria erodida pelas chuvas e sóis, perdendo aos poucos sua cor original, empalidecendo. Nos quintais, coitadas, morreriam estraçalhadas por um cachorro, ou seria rasgada por um adulto ranzinza. Bons tempos os que empinávamos pipas.

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"Talvez não seja mais do que o meu sonho...
Esse sorriso será para outro, ou a propósito de outro
Loura débil...
Álvaro de Campos