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Camisa por dentro.

Lembro da minha infância e vejo que o Natal era um dia que exigia certos preparativos por parte da minha família. Todo ano havia a cobrança de minha mãe, dizendo a meu pai que precisava comprar a roupa de Natal dos meninos. E todo ano íamos comprar as roupas, que eram usadas na noite do dia vinte e quatro, mesmo que não saíssemos de casa. Meu cabelo era penteado de lado, e meu pai cobrava de mim que permanecesse com a camisa por dentro da calça, mesmo sabendo que as brincadeiras comuns na infância tornavam impossível o cumprimento da ordem.

Recordo-me de uma árvore de Natal que era torta, pois tinha quebrado o tronco, sendo depois remendada, mas serviu-nos muito até que meu pai comprasse outra – creio até que gostava mais daquela deficiente do que das que a ela sucederam. Sempre tínhamos peru e queijo, daqueles vendidos em cuia, além de panetone, que nunca gostei de comer. Seria incorreto dizer que fazíamos ceia, pois meus pais sempre mostraram certa timidez quando se trata de realizar procedimentos símbolos das famílias tradicionais – a família perfeitinha da novela das oito. Mas tacitamente tínhamos uma confraternização, o que ficava claro pelo menos no fato de meu pai sempre reclamar quando eu ia à casa de alguém na noite de Natal, afinal, Natal é cada um em sua casa.

Além da roupa, sempre ganhávamos presentes de tios ou tias. E confesso a expectativa que sentíamos quanto aos mimos que receberíamos, mesmo quando o ofertante era um parente não muito querido. Nunca cri em Papai Noel, como disse, era um símbolo que meus pais nunca sustentaram em meu espírito. E ria quando ouvia amigos dizendo que ele existia e que à noite ele colocava presentes sob suas camas, quando eles dormiam. Não sei se achava mais patético meus amigos, que acreditavam nisso, ou seus pais, que – eu não tinha dúvida – perdiam tempo iludindo seus filhos.

Mas eu mesmo acreditava no Natal naqueles tempos, era uma data especial, em que tudo parecia diferente. Eis que crescemos e a realidade vai nos tolhendo a capacidade de crer. De qualquer maneira, considero que, pelo menos, é um dia em que as pessoas estão dispostas a confraternizar e solidarizar-se. Alheio às peculiaridades cristãs do evento, estarei em casa, com minha família, com o cabelo penteado de lado e a camisa por dentro da calça, desejando feliz Natal e abraçando a todos quantos for possível.

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"Considero a crueldade e o assassínio em massa coisas más e desejava que todos concordassem com a minha opinião. Isto não evita que outros desejam tanto a crueldade como o assassínio em massa, tal como demonstra o procedimento de todos os que ocupam posições de mando e da maioria da humanidade."
Bertrand Russel