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O tempo das pipas.

“Corrupiou! Corrupiou!”, gritávamos todos, sempre que a pipa no céu perdia a rabada e começava a rodopiar como uma louca, trazendo a seu dono uma preocupação imensa, fazendo-o agir como o comandante dum navio em naufrágio, ou melhor, dum avião prestes a se estatelar no chão. Fenômeno fácil de explicar: a pipa, para ficar erguida e estável, necessitava do peso da rabada para compensar a força do vento. Quando a rabada caísse por estar mal amarrada ou por ter sido cortada pela linha de outra pipa a estrutura física estava desestabilizada, e seu piloto perdia o comando.

Aí, além dos gritos dos que competiam para ficar mais tempo no ar, tinha a pressão psicológica dos “perus” (os que não tinham pipas, ou já tinham perdido as suas), que não se cansavam de escarnecer do “corrupiado”. Este, por sua vez, puxava a linha ansiosamente, para não perder sua aeronave. Era como se puxasse um sobrevivente lançado ao mar repleto de tubarões. Emocionantes momentos em que uma criança sentia-se com grande responsabilidade.

Nos tempos de pipa, os céus do bairro ficavam multicores, com arraias, caiais e maranhões realizando piruetas, dançando sob a vontade dos meninos que não cansavam de agitar os dedos, (des)controlando as linhas. As arraias são aquelas retangulares, feitas de papel de seda e com duas taliscas de coco. Os caiais, ou periquitos, são feitos de papel ofício ou qualquer folha de caderno – de baixo custo, não exigiam os caríssimos cinqüenta centavos de uma arraia, nem a ciência necessária para fazer um maranhão. Já este último, recebia esse nome certamente pela forma pentagonal, sugerida pelo formato físico do estado do Maranhão.

Não se pode ignorar a disputa freqüente dos que “temperavam” suas linhas, no intuito de cortar as linhas adversárias. E quanto desespero ver uma pipa que, antes imponente, faceira, repentinamente flutua, descontrolada, até ser perdida de vista, caindo em um telhado ou quintal qualquer. No telhado ela seria erodida pelas chuvas e sóis, perdendo aos poucos sua cor original, empalidecendo. Nos quintais, coitadas, morreriam estraçalhadas por um cachorro, ou seria rasgada por um adulto ranzinza. Bons tempos os que empinávamos pipas.

Um comentário

  1. torador de pipa

    pipa é um macimo (como fazer cerol) (pegue cola de madeira bote num litro de pichula bote vidro de cristal e televisão emexa bem bote um pouco de goma para endurecer mais a linha ai e só tora mano

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"No Museu Dos Vencidos estão reunidos todos os papeizinhos com os discursos de agradecimento não lidos pelos perdedores de todos os prêmios."
Michel Melamed