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O velho

O velho, por detrás das grades do seu condomínio, observa os transeuntes de sua cidade dita grande. Observa-os como se neles quisesse alcançar alguma paz, e nada encontra além da arrogância de seus passos ligeiros, apressados.

Um pouco mais à frente, na avenida, carros. Massas de ferro, monstros ruidosos, fedorentos – expelindo fumaça quais dragões feros. E o velho olha-os aflito, questiona que seres são aqueles que não são outros, de outra essência, de outra matéria. Surpreende a esperança do velho. Um velho com esperança. Ei-lo frustrado.

Olha mais uma vez os passantes, encara uma moça negra, que não lhe percebe, e nem lhe entende o pedido de consolo ante sua desolação. A boina marrom do velho, sua camisa xadrez, sua calça preta e as chinelas de couro marrom trazem a imagem dum homem que deseja outros tempos, tempos passados, ou tempos não vividos.

De chofre, aparece sua velha, pega-lhe o ombro esquerdo ao tempo que murmura algo. Ele sorri palidamente, toma a mão enrugada dela e beija-lha. Levanta-se e saem juntos, lentamente caminhando a algum destino.

O emplastro

Não lembro ao certo quando em mim se manifestou o hábito de escrever, certamente, como não é raro acontecer, ao prazer de ler sucedeu-se a ambição de produzir bons escritos. Nesse sentido, criei-me um blog, antes do Café, que me fez perceber o necessário para ser lido por outras pessoas. A preguiça, a incompetência e a pusilanimidade características do meu ser negam-me, ainda hoje, o título de bom escritor. Creio que já uns três ou quatro anos foram-se sem que priorize este mister, o que já se vai configurando perda de tempo. Resolvo, pois, mudar algumas coisas em minha rotina e nas publicações deste espaço. Perceber-se-á.

Mais de mim.

Continuo contemplando as madrugadas na solidão do meu gabinete, e não creio haver algo de mais útil para fazer. Na próxima segunda-feira volto ao expediente, findam-se minhas férias – mas digo que esse não é necessariamente um incômodo para mim. O que tem sido um incômodo é falsear conversas e expressões de satisfação quando estou me relacionando com algumas pessoas. Como já disse aqui, conheço pouquíssimos seres extraordinários, de maneira que o contato com a maioria dos homens rende conversas triviais e pouco importantes.

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Leio Naná, uma “jovem deixada muito cedo pelo seu próprio possuidor sério, caída em amantes equívocos“. É o primeiro contato que tenho com o francês Émile Zola.

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Daqui para o domingo devo postar algo interessante por aqui. Por enquanto vou empurrando na goela de vocês a sordidez da minha rotina.

Trivialidades

As relações entre as pessoas – amizade, parentesco, flertes – estão pautadas na mentira. Não suportaríamos a verdade sobre nós mesmos.

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A pouco disse que as mulheres são complicadas. Também são naturalmente prepotentes e provocadoras. E maravilhosas.

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Tenho lido isso e ouvido isso.

Eu sou barroco.

Novo(a) Documento do Microsoft Word

Encontro-me neste momento em meu quarto, ouvindo o ranger da cadeira em que estou sentado e o barulho um tanto irritante do ventilador. A xícara de café encara-me (ela é verde e azul claros, ficando deveras agradável o contraste com o escuro da bebida). Sempre uso um guardanapo sob as xícaras, para o caso do líquido derramar, além de conservar a madeira da escrivaninha contra a quentura. Há uma penumbra – a única luz vem do monitor do computador, onde agora vejo essas letras no Microsoft Word.

Queria escrever algo mais interessante para postar. Pensei em alguma asneira sobre o amor, ou sobre o porquê das mulheres serem tão complicadas. Também desisti de dizer o que estou ouvindo, lendo ou assistindo no momento, pois creio ser enfadonho à maioria dos leitores. Enfim, me resta colocar isso mesmo, que pouco interessará a alguém. Agora irei comprar um jornal, tenham um bom dia.

Uma paixão por ano.

O ideal seria que cada pessoa se apaixonasse uma vez por ano, no mínimo – dizia eu a um amigo. A paixão, essa tempestade que assola as almas humanas, é a inconsciência dos defeitos do outro. Sim, talvez uma doença que nos cega. Diferente do amor, que não é cego. O amor é consciente. Quem ama, ama o outro sabendo dos seus erros e imperfeições.

Apaixonar-se é criar um deus para si, é a perda relativa da consciência. O amor vem duma maturidade, é cultivado aos poucos. Mesmo quem ama tem que se (re)apaixonar, sob pena de ficar preso nos grilhões da realidade.

Revellion

Certamente passei o melhor dos revellions. Abri um prossecco de ótima cepa antes do foguetório, sem estouros nem derramamentos, claro. Para acompanhar, dois tipos de queijo e kani com patê.

Perceba-se aqui a característica empáfia proveniente dos prazeres burgueses – mas gastei menos que cinqüenta contos. Há quem tenha gastado muito mais para abraçar-se com pessoas grudentas na beira do mar. Como quer que seja, mando daqui, sem muita efusão, minha recomendação de um bom ano para todos.

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"Fiz de mim o que não soube,
E o que podia fazer de mim não o fiz.
O dominó que vesti era errado.
Conheceram-me logo por quem não era e não desmenti, e perdi-me.
Quando quis tirar a máscara,
Estava pegada à cara.
Quando a tirei e me vi ao espelho,
Já tinha envelhecido."
Álvaro de Campos