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Dormi

Nessa época de supervalorização da atividade, dos elogios ao dinâmico e movimentado, o sono é um chiste. Dormir é uma ofensa possível aos homens capitalistas, produtores. Dizem que oito horas de sono por dia é o ideal — mas quanto absurdo há em dizer-se que se dorme oito horas por dia! O homem quando pára desvirtua a filosofia da evolução, a marcha psicopata por estar à frente dos que estão à frente, e finalmente percebemos todos no mesmo lugar.

Quem concebe o que disse Sá-Carneiro?

Sim: ficar sempre na cama, nunca mexer, criar bolor —
Pelo menos era o sossego completo… História! Era a melhor das vidas…

Dormir: palavra que tornou-se sinônimo de omissão. Mas, não. Dormir é a ação de recusa ao status da consciência usurária pelo movimento. Dormir é um protesto. Dormi, e dás uma tapa na cara do homem-máquina.

Era uma moça de pele alva, certamente sensível ao sol, cabelos e olhos negros. “Água mineral sem gás, por favor” – pediu com voz saudável. Do banco do botequim, donde tomava um café dormido, olhava-a atento: quem dera dar-lhe o braço até sua charrete, e lá chegando levantá-la, acomodando seu magro corpo. Algumas moedas ao pajem, um olhar tendencioso de despedida para ela.

“Não, não estou para mais; não quero mesmo brinquedos.
Pra quê? Até se mos dessem não saberia brincar…
Que querem fazer de mim com estes enleios e medos?
Não fui feito pra festas. Larguem-me! Deixem-me sossegar!…”

Mário de Sá-Carneiro

Anti-arte, Fígaro e Cristo.

Por esses dias visitei uma pizzaria aqui em minha cidade, onde bebi algum vinho e escutei um músico não tanto ordinário. De errado ele tinha aquela velha técnica de oferecer-se a tocar o que o público quisesse – coisa perigosa, anti-artística e deveras ligada a um marketing apelativo. O perigo está em não saber tocar todas as canções, e aí se frustra o público. Anti-arte pois não entendo o artista concessivo, maleável, ao contrário, o artista deve impor ao público sua arte, suas interpretações, de maneira que se perceba nele uma certa empáfia, uma superioridade. Tocar a música que o público deseja é trazer para a arte a estratégia self-service, o marketing desesperado, sempre usado por qualquer vulgar publicitário. Daqui a uns dias estarão colocando a música no cardápio para que o cliente escolha. O artista que se curva a um público pode bem ser substituído por um aparelho de mp3.

* * *

Já disse aqui, ou já dei a entender, que meu gabinete é um dos melhores lugares do mundo. Agora mesmo, ao ouvir Le Nozze Di Figaro, senti-me num teatro aristocrático neoclássico, devidamente decorado com tecidos dourados e veludos vermelhos. Cruzo minhas pernas de maneira vaidosa e retiro da cabeça a cartola que fica acomodada sobre a calça preta do meu terno. Lá dos camarotes percebo – sem deixar-me perceber – que existem duas raparigas olhando-me através dos seus binóculos (uma delas comenta a elegância de minha gravata borboleta). Uma chama-se Deruchette, a outra Julie.

* * *

E ainda há quem reclame do cristianismo, que nos poupa uma sexta de trabalho, influenciando-nos ao consumo de vinho e frutos do mar.

Etil

Por esses dias dediquei-me a prazeres etílicos. Beber com os amigos é uma atividade que me está sendo agradável – serve mesmo para alcançar um estado de inconsciência relativa das coisas cotidianas, algo que dificilmente se consegue. Certamente o vinho está no patamar sublime em que estão o café, a música, a literatura, a filosofia e o sexo.

Todas as sociedades arrumam uma maneira de se drogar, umas com ópio, outras com o álcool, e boa parte delas com religiões, afinal, quem suportará a realidade tal como se apresenta-nos?

Sugiro que procurem a fugacidade ideal para seus cotidianos. Eu, por agora, vou lançar mão da arte.

(Entre parênteses)

A maioria das mulheres está entre aspas. Quem negará o ser dissimulado, teatral, conotativo das mulheres? As aspas as acompanham constantemente, de forma que o sim poderá vir a ser um não, o ódio poderá representar-lhes o amor, a solidão e a melancolia, nas mulheres, não raro demonstram-se alegrias comutadas. Mas não está se tratando aqui de algo desconhecido – não é incomum falar-se do dom de iludir feminino.

Mas eis que se apresenta-nos a mulher entre parênteses. Ela é original, possui em seu ser a falta de vínculo imediato com a realidade, seus parênteses servem para dar-lhe a liberdade de entender e explicar as coisas sem subjugar-se, livre. Seu acordo é apenas consigo mesma, é soberana.

Quando um homem encontra dessas mulheres entre parênteses logo anseia entendê-la. Essa realidade unívoca, protegida por duas curvas, atrai mesmo o mais distraído observador. Quem és? Como formou-se? De onde vem? Para onde vai? Os parênteses são dois espelhos convexos, divergindo qualquer luz que ouse invadi-lo – e é nessa dificuldade que está a atração.

O óraculo da banca de revistas.

Adentrei a banca de jornal, peguei um exemplar do dia e paguei com algumas moedas que sobravam-me no bolso. Chamaram-me a atenção algumas revistas, que me prenderam por alguns instantes até a chegada dum velho de longos cabelos brancos, acompanhados de espessa barba. Sentou-se num banco interior à banca para assistir o jornal que passava na tevê – agiu como íntimo fosse do ambiente e da mulher de cara entediada que despachara-me.

Após assistir uma reportagem, olhou para mim, desacreditado, e disse:

“Sua geração tem o dever de acabar com a corrupção. Eu e os meus acabamos com a ditadura, fizemos leis para a liberdade. Vocês agora têm que zelar por elas. Minha geração derrubou a ditadura, a sua tem que derrubar a corrupção.”.

Concordei instintivamente com o velho. Comprei mais duas revistas – uma falando do bigodudo Nietzsche, outra do Mago. Paguei e fui interpretando o óraculo da banca de revistas pelas ruas; e bem que o ancião parecia Nostradamus.

Imã

Passei numa praça onde passou-me uma moça de blusinha branca, simples, com buraquinhos (des)simplificadores de blusinhas brancas. Pescoço magro, pele bege, ar excêntrico que supunha certa poesia em seu modo de vida. Deixou derramar um tanto de perfume quando alinhamos os corpos, que minhas narinas colheram e, egoístas, não devolveram ao mundo. Era o cheiro de prolixidade, de introspecção. “Prometo que vou te conhecer melhor”, disse eu sem saber o porquê de tanto imã.

Parece-me que ainda há uns insistentes que passam por aqui vez ou outra. Já disse que não abandonarei este espaço. Mas ele dorme, sonha e tem pesadelos. Enquanto ele não acorda, repito, estou trabalhando.

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"Talvez não seja mais do que o meu sonho...
Esse sorriso será para outro, ou a propósito de outro
Loura débil...
Álvaro de Campos