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Depois de boa época, retorno ao hábito de jogar xadrez. É um jogo dominado pela razão, mas que a emoção pode surgir a qualquer hora e destruir o reinado. Basta uma provocaçãozinha do adversário, um erro de cálculo, uma distração. Xeque-mate! Parece a vida.

Lembro-me que quando mais jovem projetava a imagem de um escritor recluso em seu gabinete, rindo-se das picuinhas da vida em meio aos seus livros e pensamentos. Talvez um charuto descansasse no cinzeiro, enquanto fora dali a chuva insistisse em chocar-se contra a janela, que mostrava um mundo cinza a desabar. O homem andava, tocava os móveis, as páginas, algumas fotografias. Contemplava o passado, suas obras e conquistas – quantas suas idéias teriam vingado? Que tinha sido? Quantas paixões frustrara? Quantas consumiu?

Doutor, para quê? dizia comigo. Pois se nem o sol, nem a lua, nem as moças, nem os bons charutos Vilegas eram doutores, que necessidade tinha eu de o ser?

Do conto “Eterno!”, Machado de Assis.

Por esses dias carrego em mim uma dor de cabeça, um entojo. Desejo de cuspir ao ver cada riso desgrenhado, ojeriza de cada fala estridente. É a reincidência do ser, incorruptível, convencido da superficialidade besta das relações em sociedade.

As madrugadas ainda são meus melhores momentos. Regadas a café e idéias esdrúxulas, parecem momentos em que algum tipo de dom me toma e faz-me sentir um indivíduo potencialmente artista e filósofo. São boas as madrugadas insones.

Resolvi retomar a leitura de Zola, que deixara de lado em virtude de leituras técnicas. Além disso, assisto Prison Break (seriado ordinário mas divertido) e pretendo rever alguns filmes interessantes que vi há uns três ou quatro anos atrás.

O mister do filósofo é fugir da realidade e homiziar-se sob o cobertor das idéias. Ele quer sempre decepar-se da sensibilidade material para substituí-la por elementos teóricos algumas vezes impraticáveis. Há algo de poeta no filósofo – ambos cometedores dos delitos que galhofam do status quo.

Sempre entendi que datas comemorativas pouco servem de reconhecimento aos seres comemorados – a não ser aos santos, que constantemente vigiam-nos, dizem os padres. Destarte, evoco o centenário da morte de Machado de Assis apenas para influenciá-los a ler qualquer coisinha do homem. É o que me cabe, a não ser o que os padres estejam certos e um dia eu possa apertar a mão daquele velho gago.

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Um pouco de Pascal para digerir:

“O homem não passa, portanto, de disfarce, mentira e hipocrisia, tanto em face de si próprio como em relação aos outros. Não quer que lhe digam verdades e evita dizê-las aos outros; e todos esses propósitos, tão alheios à justiça e à razão, têm em seu coração raízes naturais”.

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"Considero a crueldade e o assassínio em massa coisas más e desejava que todos concordassem com a minha opinião. Isto não evita que outros desejam tanto a crueldade como o assassínio em massa, tal como demonstra o procedimento de todos os que ocupam posições de mando e da maioria da humanidade."
Bertrand Russel