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É saudável esporadicamente sentir certo asco por toda a humanidade.

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Em toda defesa há uma paixão. O que difere umas das outras é a sensatez utilizada nos argumentos, ou a eficiência da mentira, ou a potência do sofisma.

A voz da ética abafada.

Fosse a república uma orquestra e cada sua instituição um músico, o senado seria o maestro. Pelo menos assim fora em Roma, e no Brasil de outras épocas. Machado de Assis, no conto O velho Senado, onde trata do Senado de 1860, que contava com figuras da estirpe de Eusébio de Queirós, pergunta-se “se eram eles [os senadores] que podiam fazer, desfazer os elementos e governar com mão de ferro este país”. Sim, era no Senado que se vislumbrava o destino do povo, do território e da soberania brasileira. Que não nos enganemos quanto à pureza daquele Senado de 1860, uma vez que o próprio espectador nos adverte que “as mais claras águas podem levar de enxurro alguma palha podre”.

Assim, àquela época já não éramos isentos dos fisiologistas, dos submissos, dos demagogos, dos desinteressados. Mas percebe-se naqueles homens – pelo menos agora, guarnecidos pelo escudo da história – uma postura ideológica definida, o discurso congruente, as decisões e ações pautadas nalguma ética. Mas hoje… “Este Congresso que está aqui, desculpem-me a franqueza, é o pior de que já participei. É a pior legislatura da qual já participei. Nunca vi um Congresso tão medíocre. Claro, com uma minoria ilustre, respeitável, a quem cumprimento. O meu desalento é profundo“.

As palavras são do recém-falecido Senador Jefferson Péres. Aos 76 anos, sofrendo um infarto fulminante morre quem, para mim, era um exemplo de homem público. Certamente um dos derradeiros componentes do senado maestro, ético, grande. Quando a poucos dias atrás perdemos Artur da Távola, também ex-senador, eis que se vai outro da mesma geração. As vozes que não se calaram ante a corrupção foram abafadas pela morte – sem legar substitutos a altura.

“Sobre nossa casa, de Jorge e minha, na rua Alagoinhas, 33, no bairro do Rio Vermelho, em Salvador da Bahia, muito já se disse, muito se cantou. Citada em prosa e verso, sobra-me, no entanto, ainda o que dela falar.

Fico pensando se alcançarei escrever todas as histórias, tantas, de gente e de bichos que nela passaram nesses quarenta anos lá vividos.

Neste momento, quando me despeço do lugar onde passei o melhor tempo de minha vida, ao deixar Jorge repousando sob a mangueira por nós plantada no jardim, mil lembranças afloram-me à cabeça. Lembro-me de coisas que para muitos podem parecer tolas, mas que para mim não são.

Lembro-me, por exemplo, de duas mimosas lagartixas que viviam atrás de um quadro de Di Cavalcanti, acima da televisão da sala, e que tanto nos divertiram. Um belo dia elas apareceram, sem mais nem menos: uma toda rosada, quase transparente; a outra com listras escuras em volta do corpo. Jorge foi logo escolhendo: ‘A zebrinha é minha.’ A mais bonita, pois, ficou sendo a dele. A outra, que jeito? De dona Zélia.

Recostados em nossas poltronas, após o jantar, para assistir aos noticiários de TV, vimos, pela primeira vez, as duas saírem de seu esconderijo, uma atrás da outra, direto para uma lâmpada acesa, no alto, reduto de mosquitos e de bichinhos atraídos pela luz.

— Elas agora vão jantar — disse Jorge.

Dito e feito: as duas se aproximaram docemente da claridade, estancaram a uma pequena distância da lâmpada e, imóveis, na moita, só observando. De repente, o bote fatal foi desfechado e lá se foi um dos insetos para o bucho da lagartixa de Jorge. Diante do perigo, quem era de voar voou, quem era de correr, correu, lá se foram os bichinhos, não sobrou um pra remédio, o campo ficou limpo.

Estáticas, as duas sabidas aguardaram pacientes a volta das vítimas, que, inocentes, aos poucos foram criando coragem e se chegando para, ainda uma vez, cair na boca do lobo. Ainda uma vez o lobo foi a zebrinha, que, como num passe de mágica, abocanhou um mosquito. Encantado, Jorge ria de se acabar, provocando-me: ‘A tua não é de nada!’ Eu protestei e ele riu mais ainda.

Brincadeira boba, inocente, passou a ser nosso divertimento durante muitas e muitas noites, muitas e muitas noites voltamos à nossa infância.”

Trecho do livro Memorial do Amor, de Zélia Gattai

Quem tem medo de música clássica?

“Música é vida interior; e quem tem vida interior, nunca padecerá de solidão.” – Artur da Távola (1932 – 2008).

Do que sobrou

Olho para a menina que brinca de bicicleta, dando voltas na pilastra duma varanda, e lembro que também já brinquei de bicicleta. Numa época em que havia quintais nas casas – com terra, mato e mangueiras – eu brincava de bicicleta. Via as coisas com o olhar engenhoso de criança, transformando a realidade em outras mil, se é que podemos tratar duma realidade em quando se é criança.

A mangueira fornecia a sombra no quintal, e sob ela eu sujava as unhas de terra, construía pistas de corrida de tampinhas, trincava bolas de gude umas nas outras e mangas verdes nos dentes. Pedras, insetos, lama: tantas eram as matérias-primas do mundo impossível que construía numa tarde, após ter feito os deveres da escola.

Hoje sinto o desejo de voltar àqueles tempos, e percebo que meu olhar quixotesco foi-se embora, fora castrado pelo tempo, pela experiência. É como se minha mãe tivesse-me chamado para dentro de casa, por já ser noite, e pela necessidade de tomar banho e comer. Entrei em casa por causa da noite e nunca mais saí: ei-me no escuro. Tomei banho e desceram pelo ralo minha capacidade de forjar mundos. Comi uma realidade só, na digestão aproveitei uma percepção estéril.

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"Talvez não seja mais do que o meu sonho...
Esse sorriso será para outro, ou a propósito de outro
Loura débil...
Álvaro de Campos