Do que sobrou
Olho para a menina que brinca de bicicleta, dando voltas na pilastra duma varanda, e lembro que também já brinquei de bicicleta. Numa época em que havia quintais nas casas – com terra, mato e mangueiras – eu brincava de bicicleta. Via as coisas com o olhar engenhoso de criança, transformando a realidade em outras mil, se é que podemos tratar duma realidade em quando se é criança.
A mangueira fornecia a sombra no quintal, e sob ela eu sujava as unhas de terra, construía pistas de corrida de tampinhas, trincava bolas de gude umas nas outras e mangas verdes nos dentes. Pedras, insetos, lama: tantas eram as matérias-primas do mundo impossível que construía numa tarde, após ter feito os deveres da escola.
Hoje sinto o desejo de voltar àqueles tempos, e percebo que meu olhar quixotesco foi-se embora, fora castrado pelo tempo, pela experiência. É como se minha mãe tivesse-me chamado para dentro de casa, por já ser noite, e pela necessidade de tomar banho e comer. Entrei em casa por causa da noite e nunca mais saí: ei-me no escuro. Tomei banho e desceram pelo ralo minha capacidade de forjar mundos. Comi uma realidade só, na digestão aproveitei uma percepção estéril.






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