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Por que sou um camundongo?

Li “Memórias do Subsolo”, de Fiódor Dostoiévski. Trata-se duma obra capaz de trepidar a consciência dos que a entendem – e suponho que apenas os seres do subsolo a entendem. Nietzsche foi um deles, e ao lê-lo disse: “A voz do sangue (como denomina-lo de outro modo?) fez-se ouvir de imediato e minha alegria não teve limites”. Uma dose do livro, encontrada lá pela página 22, aos senhores:

“Como é que faz, por exemplo, aquele que sabe vingar-se e, de modo geral, defender-se? Quando o sentimento de vingança, suponhamos, se apodera dele, nada mais resta ao seu espírito, a não ser este sentimento. Um cavalheiro desse tipo atira-se diretamente ao objetivo, como um touro enfurecido, de chifres abaixados, e somente um muro pode detê-lo. (Aliás, diante de um muro tais cavalheiros, isto é, os homens diretos e de ação, cedem terreno com sinceridade. O muro para eles não é causa de desvio, como, por exemplo, para nós, homens de pensamento, e que, por conseguinte, nada fazemos; não é um pretexto para arrepiar carreira, pretexto em que nós outros costumamos não acreditar, mas que recebemos sempre com grande alegria. Não, eles cedem terreno com toda a sinceridade. O muro tem para eles alguma coisa que acalma; é algo que, do ponto de vista moral, encerra uma solução — algo definitivo e, talvez, até místico… Mas deixemos o muro para mais tarde.) Pois bem, um homem desses, um homem direto, é que eu considero um homem autêntico, normal, como o sonhou a própria mãe carinhosa, a natureza, ao criá-lo amorosamente sobre a terra. Invejo um homem desses até o extremo da minha bílis. Ele é estúpido, concordo, mas talvez o homem normal deva mesmo ser estúpido, sabeis? Talvez isto seja até muito bonito. Estou tanto mais convencido desta suspeita, por assim dizer, que se tomarmos, por exemplo, a antítese do homem normal, isto é, o homem de consciência hipertrofiada, o homem saído, naturalmente, não do seio da natureza, mas de uma retorta (já é quase misticismo, senhores, mas eu suspeito isto também), o que se verifica, então, é que este homem de retorta a tal ponto chega a ceder terreno para a sua antítese que a si mesmo se considera, com toda a sua consciência hipertrofiada, um camundongo e não um homem. Talvez seja um camundongo de consciência hipertrofiada, mas sempre é um camundongo. Ora, trata-se de um homem e, por conseguinte, de tudo o mais também. E o mais importante é que ele mesmo se considera a si mesmo um camundongo; ninguém lhe pede isto, e este é um ponto importante.”

Se o leitor não entendeu o que o trecho acima diz, ou acha insano alguém considerar-se um camundongo, nos termos expostos, melhor ignorar a leitura, e não dedicar tempo a essas tolices.

Culto pelo tédio.

Ser atraído pelo impopular não é mero capricho, vaidade – isolar-se culturalmente para aparecer socialmente. Pode significar mesmo o contrário: ao ignorar, por tédio, a massa, o homem não está imune de cair no abismo da desaprovação até de si por si. É como odiar Beethoven e ouvir suas sinfonias apenas para ter o prazer de ignorar os demais.

A natureza entediada

A regra é as pessoas desagradarem-me. Familiares, bajuladores, desafetos e a moça que cortejo. Sim, rio descaradamente, aperto mãos, distribuo amplexos e movimentos de cabeça – mas em mim a regra é o desagrado. Isso não é mau humor, tampouco depressão ou essas modinhas estúpidas que inventam para justificar a natureza rebelde do homem.

Ser entediado dos outros é uma condição que não se pode abandonar quando se tem isso na genética. Infelizmente (ou não), quando você fala bobagens, lanço mão até mesmo de argumentos cartesianos para mostrar o quão és idiota. Às vezes mostro-me idiota só para me desqualificar depois. Enfim, tenho a mania da contradição. Queria que assim não fosse, mas se pudesse escolher, continuaria como estou.

A pequena aristocrata.

Estar seduzido por uma pequena é sempre algo prazeroso, principalmente quando a linguagem utilizada no jogo da sedução são o olhar e toques involuntariamente propositais, se é que me entendem. Para mim, um bom critério para analisar o grau de fidalguia duma dama é imaginá-la sentada à mesa dum café parisiense, observando seu porte, sua empáfia. Quando nela percebo a dose certa de aristocracia, não há jeito: estou seduzido pela pequena!

Cansaço

Cansaço; em uma palavra toda a minha vontade. Dos equívocos, das maldades, das perversidades, dos bem-intencionados. Cansaço.

Sábado…

Sábado agradável este. A todo tempo no comodismo do meu gabinete, ao som de Billie Holiday, e, obviamente, aos goles de café. Algumas conversas filosóficas via messenger e umas poucas reduções na lista de obrigações e projetos, que já fazem aniversário.

Crítica às delimitações feminis.

E quais são as mulheres que encontramos por aí? Produzidas em massa, robotizadas, saídas duma forma, dadas à subserviência e ao seduzismo vulgar. Sim, sim, alguém me diz, há exceções (não sou louco de não dizê-lo, sob pena de ser contemplado com a pecha do machismo). Mas as mulheres, dizia, perdem-se numa uniformidade trivial (certamente também os homens, mas não me interessam eles).

É uma visão limitada pelas coincidências e desencontros oriundos duma vida desencontrada e limitada.

Mas onde estão as mulheres que gostam de Liszt? Ou mesmo as que mandam Liszt ao inferno? Mostrem-me as mulheres que não se entendem, ou as que estão cansadas de se entender. E as herméticas, isoladas e psicologicamente virgens, invioladas? Moças que não querem casar-se, ou que já descasaram inúmeras vezes — a si ou a outrem —, onde estão elas?

A Dama

Uma dama deve ser polida e bela. Ser bela e polida são status ligados mais ao mistério de suas posturas do que à sua carne especificamente. À maneira de conduzir sua mão ao tocar um homem mais do que a cor de suas unhas. Ao modo de sentar e cruzar as pernas mais do que o diâmetro de suas coxas.

Ser uma dama é mais, muito mais, do que ser geneticamente favorecida.

Os leigos.

A diferença entre um bando de leigos inventando um entendimento e um bando de leigos assumindo o desentendimento é que o primeiro bando pensa não ser leigo, ou, quando pensa, percebe-se perante o abismo de sua própria ignorância – por isso é dado a criar entendimentos.

Os playboys e os intelectuais.

Já me dispus a integrar o grupo dos playboys. Sim, afinal, eles são o tipo que as mulheres gostam – estúpidos, geneticamente perfeitos para defender a prole e dotados dum senso de humor sórdido, propõe-lhes diversõezinhas que se afastam do enfado (as mulheres odeiam o enfado). Não tive sucesso, pelo que se percebe. Odeio academias de musculação, e, definitivamente, sou um sujeito enfadonho.

Eis que fui recrutado pelo grupo dos intelectuais, que, na verdade, não é um grupo. Ser intelectual exige certo preparo para a solidão e para o tédio – daí a exclusão do sentido coletivo para a intelectualidade. Quando vemos dois ou mais intelectuais juntos, estão tomando café, bebida que não se brinda, e discordando entre si em torno de alguma questão tida como superior. Ao contrário dos playboys, que sempre concordam quanto às mulheres gostosas existentes numa festa animada por Ivete Sangalo.

Next,

"Considero a crueldade e o assassínio em massa coisas más e desejava que todos concordassem com a minha opinião. Isto não evita que outros desejam tanto a crueldade como o assassínio em massa, tal como demonstra o procedimento de todos os que ocupam posições de mando e da maioria da humanidade."
Bertrand Russel