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Debate

Num debate filosófico com o filósofo Leonardo Bernardes, cheguei à seguinte conclusão: “há uma contrapartida relativamente cômoda para os ‘alijados’ do poder: o exercício de sua preguiça.”. Outrora cria que apenas “o conjunto de mecanismos já estabelecidos para manter o status atual das coisas: indivíduos dóceis, adestrados” é que se devia relevar. Toda essa alteração na avaliação da alienação se deve aos argumentos do filósofo, melhor explanados aqui e aqui. Leia-se:

“os indivíduos dóceis, domesticados, não são produtos da ação opressora do poder. A feição do poder nos dias de hoje não é a de um agente opressor, mas de um sedutor. Ele se define não pela imposição de barreiras e contingenciamento — e não se limita ao Estado — que entravam o status dos indivíduos na sociedade mas por criar uma organização de tal sorte que os indivíduos são aliciados por uma condição de conivência na qual são co-agentes.

Não é de hoje que o poder é analisado nesse aspecto aliciador. Veja por exemplo a “servidão voluntária” de La Boetié, como é possível que massas inteiras se subordinem a um único homem (ou poucos deles)? Nunca pensou que houvesse mais do que força empregada nesse domínio?” – Leonardo Bernardes

2 Comentários

  1. “os indivíduos dóceis, domesticados, não são produtos da ação opressora do poder.”

    Nietzsche defendeu exactamente a ideia contrária, quando denunciou a submissão dos cristãos como uma forma de reacção ao poder da elite.

    A “sedução” que o Poder institui ― substituindo a tradicional opressão ― é baseada no apelo aos instintos mais básicos, e mesmo quando a razão é invocada para tentar justificar a supremacia do instinto, trata-se de uma “razão instintiva”, simplista e pouco elaborada. Quando a sedução não é baseada na razão mas no apelo ao instinto, trata-se de uma forma de opressão como outra qualquer.

    A “dádiva” do exercício da preguiça é, também ela, uma forma de opressão, porque a preguiça não é um direito para quem não a quiser praticar. No fundo, o exercício da preguiça deixa de ser um direito para passar a ser uma obrigação dos alijados do Poder ― é algo compulsivo, ostracizante. O alijado do poder não tem escolha senão praticar a preguiça, e nesse sentido, o Poder revela a sua índole opressora.

    R: Orlando. A verdade é que preciso de algumas leituras sobre o assunto. Os argumentos do Leonardo são relevantes, os seus (Nietzscheanos) também. Mas ainda tendo a acompanhar a lógica do Leonardo – a omissão dos “alienados” é dolosa.

  2. Isso me faz lembrar uma palestra, acho que do Antônio Cícero, nas conferências do projeto Cultura em Pensamento, em que ele faz uma observação (com a qual eu concordo) bem engraçada: dois nietzscheanos podem assumir posições contrárias e estaremos ambos certos.

    A enfermidade como abrigo é o próprio núcleo da crítica ao cristianismo. Ela justica o elogio ao além mundo ao passo em que abranda as dores de causadas pelo sofrimento. A promessa de um outro mundo é reconfortante para quem não vê vias de escape. É nessa mesma toada que segue a interpretação de Lébrun acerca da alienação — Lebrun que, para mim, é um dos mais contundentes interpretes de Nietzsche que já escreveram em língua portuguesa.

    A preguiça só pode ser entendida como opressão pela absoluta negação da liberdade, pela aceitação da tese determinista, segundo a qual tudo se cria por circunstâncias exteriores, sem dar o menor espaço para deliberação e para o exercício da vontade. E quem crê no determinismo não pode ver Nietzsche com bons olhos. Aliás, falar em Nietzsche e atenuar o exercício da vontade parece um dos poucos contrasensos que se permite assinalar na obra do filósofo. Transformar a preguiça na única alternativa possível é minar totalmente do terreno do político e dar salvo conduto aquilo que Nietzsche condenou veementemente. Nietzsche jamais viu na submissão cristã um indicador da ação opressora de quem quer que seja, ao contrário, nessa estratégia ele enxergou um sofisticado contra-ataque — a união dos fracos que, através da inversão da valores, transformou a submissão que lhes caracterizava, na verdadeira “força” e virtude. Desvirtuando o ideário grego! E fazendo da fraqueza a “força”

    “Nos enfermos a vida pulsa com maior sofreguidão” — e por isso mesmo eles precisam negar seu valor.

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"Insanidade é fazer a mesma coisa uma e outra vez e esperar resultados diferentes."
Einstein