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bon appétit

As recomendações da semana (ver menu ao lado):

Música: Buena Vista Social Club;
Cinema: Crash, no limite;
Fotografia: Peter Gasser;
Blog: Sedentario & Hiperativo.

O Elogio

Grande função tem o elogio. Não mostra necessariamente qualquer atributo valoroso do homem. Antes, diz quem lhe quer agradar, geralmente com qualquer mentira interesseira. Desejamos tanto criar em nós mesmos um príncipe, que seria estultície glorificar o outro. Estultície ou estratégia.

Impressão cafeína

Muitos livros meus têm como característica alguma mancha de café. Ou algumas. É a identidade conseqüente dum leitor desastrado e viciado em cafeína.

Sobre ônibus, amores e adultérios.

O sujeito que não anda a ônibus tem algo a perder. Refiro-me ao ônibus urbano, onde as pessoas estão expostas, visíveis umas às outras, e o melhor a se fazer é observar os companheiros de viagem. Alheada a peculiar turba que por vezes se forma em seu interior, além do constante sacolejar, o ônibus é um microambiente de relações amorosas. Casa-se, separa-se e comete-se bigamia dentro de um ônibus. Tudo isso no caminho de um bairro a outro, da residência para o trabalho, não obstante a recente briga com o marido em casa, ou o orgasmo ocorrido imediatamente antes de embarcar, quando aproveitada a penumbra do ponto com a namorada. Sim, todos assumem um papel naquele âmbito de fugazes relações amorosas.

Dia desses, ao embarcar no ônibus, logo vi uma moça de costas, sentada próxima ao motorista. Cabelos ruivos lisos, ombros delicados e à mostra pela blusa de alcinha, pescoço laureado por uma tatuagem, parcialmente escondida pelos cabelos presos improvisadamente com uma caneta. Muito bela, por certo. Ao deslocar-me para conhecê-la, sou detido por uma jovem que subia quando o ônibus parou. Corpo bem delineado, nem grande nem pequena. Tinha cabelos castanhos lisos e mal cuidados, boca expressiva, nariz bem modelado. Por seus ombros um pouco curvados para frente e pelas olheiras (que tornavam mais belos seus olhos cor de mel) inferi logo que a jovem era estudante. Estava calçada com um sapato de salto alto que destoava de suas vestes simples — um jeans e uma blusa preta e comum. Estava expresso ali algum conflito em seu espírito.

Logo fiquei atraído pela moça. Disse-lhe — não através de palavras, naturalmente, mas principalmente com o olhar — o quanto a achava bela, que admirava mulheres dadas à intelectualidade e que estava curioso por desvendar suas incoerências e angústias. Com um olhar lânguido ela me agradeceu e concordou com o que eu disse. Admirada com aquela compreensão de si, constantemente me olhava, chamando-me timidamente para um relacionamento, tentava, com pouca habilidade, me seduzir. Na verdade, aquela jovem não é o tipo da mulher que seduz (mas arriscou-se, por causa do seu salto alto). Enfim, mostrei-me já seduzido, e por volta do sexto ponto de ônibus, estávamos pertencendo um ao outro. Estávamos em pé, o corpo dela direcionado ao meu: eis um símbolo de seu oferecimento a mim.

Mas pouco antes de descer entra uma mulher loira, atrevida. Ali estava a representante da mulher moderna, fatal, independente. Exibia jóias, maquiagem, bolsa e todos esses símbolos tão femininos. Tinha os seios imponentes, a boca libidinosa. Trinta e quatro anos, certamente – anos que lhes foram suficientes para não duvidar de suas próprias atitudes. Acabei traindo minha jovem com essa mulher, impensadamente, instintivamente. Nossos olhares roçaram-se até o momento em que desci do ônibus, onde ficaram a jovem, traída, e a mulher de gestos impávidos. A primeira, a ruiva, desceu invisível num momento qualquer destes vinte minutos de viagem. Adúltero, cheguei ao meu destino satisfeito com meus romances de ônibus.

HCA, política e corrupção na saúde.

Ainda hoje, quinta-feira, lançamento do livro do admirável Dr. Eduardo Leite. Na CDL, Feira de Santana, Bahia. 19h.

* * *

Texto que escrevi sobre o Dr. Eduardo, seu trabalho e seu livro:

HCA, política e corrupção na saúde.

Já criança eu ouvia falar do Dr. Eduardo Leite, através de relatos, quando minha mãe contava de sua aflição à época em que meu pai passou por um procedimento cirúrgico, depois de sofrer um ferimento por faca numa festa popular, que por sorte atingiu seu fígado, órgão que possui a capacidade de regeneração. Dr. Eduardo foi quem realizou a cirurgia, e ainda hoje é lembrado por isso em nossa família.

Por essa confiança estabelecida, já aos 20 anos – poucos meses antes de ingressar na APM – fiz uma consulta com ele em seu consultório, um ambiente com certo ar intelectualizado, onde se ouvia uma música relaxante, e o Dr. Eduardo, diferente do que tradicionalmente se espera, sem a roupa branca “de médico”, mas com seus peculiares suspensórios. Ainda hoje sigo o preceituado naquela consulta: a prática da meditação e a utilização em larga escala do Bolero de Ravel – assumidamente o hino do Dr. Eduardo.

Coincidentemente, o médico-intelectual acabou me encontrando e comentando em meu blog pessoal, o que resultou num contato constante via WEB, discutindo e compartilhando percepções e experiências. Recentemente, foi nomeado Diretor do maior hospital público do interior da Bahia, o feirense Hospital Clériston Andrade (HCA), o que fez escassear-se nosso contato. A última vez que o vi foi quando o visitei em seu gabinete no HCA, um ambiente menos aconchegante que seu consultório, com o telefone tocando constantemente, lembretes espalhados pela sala, papéis amontoados na mesa.

Mas o som relaxante estava lá, persistente. Era um contraponto ao caos que caracteriza o serviço público, simbolizava a resistência do médico-intelectual aos vícios do Estado ineficiente, lento, e, por vezes, perverso. Agora, já fora da direção do Hospital, ele lança o livro “HCA, POLÍTICA E CORRUPÇÃO NA SAÚDE – Parte 1“, onde relata sua experiência como médico ao longo de 33 anos de exercício da medicina em Salvador, Feira de Santana e também como Diretor Geral do maior hospital estadual do interior da Bahia. Por se tratar dum profissional que se dedica à melhoria das instituições públicas sem meias palavras, sugiro aqui no Abordagem a obra, que será lançada no próximo dia 18 de setembro, no Foyer do Teatro da CDL, em Feira de Santana. Deixo, por fim, uma citação dum artigo recém-publicado pelo Dr. Eduardo em seu blog, que é suficientemente eloqüente:

Aos que concordam comigo e dizem que a medicina tem que ser reformulada eu sempre argumento: quem tem que ser reformulado são os médicos que usam dessas lamentáveis práticas, mas, não na sala de aula e sim na cadeia, juntos aos seus colegas de prática meliante, independente de serem doutores ou não.

Nesses vagabundos algema, sim. Eles, os doutores meliantes, na realidade causam mais malefícios à sociedade do que um marginal que não teve a oportunidade de estudar.

Bebendo água de coco…

“Como negar parte do meu tempo àquele amigo que, na juventude, pagou um caldo de cana para mim?”. É o que disse (ou queria dizer) certa vez João Ubaldo Ribeiro num desses programas de entrevista na tevê. Não que eu queira colocar as faltas deste blog nas costas dos outros, mas não posso ignorar que o grau de sociabilização do indivíduo é diretamente proporcional à sua improdutividade intelectual. É por isso que quanto mais o indivíduo se propõe a freqüentar locais cheios de gente, como boates e academias de musculação, mais estúpido ele fica (o que não significa que isso seja mau, ao contrário, como já disse, até invejo esses homens).

No momento, dedico-me a alguns trabalhos acadêmicos – eventos e produções escritas – outra causa das faltas neste Café. Trabalhar academicamente, em eventos e trabalhos escritos, torna o espírito um tanto sistematizado – burro, por assim dizer (apesar de haver os que achem que a falta de sistematização é que leva à burrice, opinião que respeito e, novamente, invejo, mas que não coaduno). Sistematizado o espírito, essa individualidade maníaca que exponho aqui fica doente, e aí já se vê o resultado.

Por último, depois dos amigos e do labor, o amor. Menos que amor, por certo. Digamos, a contemplação doente de um ser imperfeito, quiçá feio, mas, por isso mesmo, atraente. “Eu me apaixonei pela pessoa errada” – diz um hit fuleiro desses que brotam a todo momento nos rádios e nas bocas malversadas. Menos que paixão, por certo. Uma doença, uma doença (o que dá no mesmo).

As mãos femininas

Que são as mãos de uma mulher? Um símbolo de sua delicadeza e finura, uma representação de suas sensibilidades – metáfora de tudo isso que é mais peculiar à mulher. A mão que é rebocada pela do homem (grossa e bruta) em praça pública, a mão que espalha detalhadamente a maquilagem no rosto, a mão que agarra os lençóis ao sentir o sexo.

Todo homem, mesmo inconsciente disso, tem fetiche pelas mãos femininas. Não obstante às vezes ele próprio agredi-las – tornando-as menos delicadas, pela via do trabalho impróprio ou com o sal das lágrimas, quando a faz sofrer. Mesmo assim, todo homem admira as mãos femininas, órgão sexual, apaixonante, acalentador.

Mesmo quando desferido o tapa na cara do cafajeste, ou quando aponta o dedo acusatório, as mãos femininas agradam, acarinham. Salve as mãos femininas.

Os ases para cima.

Há não sei que força aleatória(?) comandando a existência (destino?), onde os desencontrados passam a se reencontrar tão somente para marcar, com tal reencontro, uma coincidência tida como encanto. É assim que o romântico é enlaçado: ele vê o destino – ou o nome que quiserem dar – lançar dois dados à mesa, e se surpreende quando ambos mostram seus ases para cima. Esquece que os dados podem ser relançados, e nunca mais coincidirem, ou que nada impediria que tudo ocorresse diferente. Esquece até mesmo que os dados poderiam estar viciados…

O diabo é que não adianta dizer nada disso ao romântico…

Wrong Way

Ser tido como todo intelectual e estudioso faz com que pessoas estúpidas se aventurem a fazerem-lhe colocações sobre temas pantanosos, que, comumente, ouviram dum professor do cursinho, ou em qualquer entrevista desses programas transmitidos de madrugada na tevê. O que elas conseguem com isso? Mais desprezo. E irrigam no indivíduo erudito a certeza de suas vulgaridades.

Amanhã, no Teatro Castro Alves (Salvador-BA)…

O ermitão mais famoso do Brasil:

João Gilberto

Next,

"Considero a crueldade e o assassínio em massa coisas más e desejava que todos concordassem com a minha opinião. Isto não evita que outros desejam tanto a crueldade como o assassínio em massa, tal como demonstra o procedimento de todos os que ocupam posições de mando e da maioria da humanidade."
Bertrand Russel