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Sobre ônibus, amores e adultérios.

O sujeito que não anda a ônibus tem algo a perder. Refiro-me ao ônibus urbano, onde as pessoas estão expostas, visíveis umas às outras, e o melhor a se fazer é observar os companheiros de viagem. Alheada a peculiar turba que por vezes se forma em seu interior, além do constante sacolejar, o ônibus é um microambiente de relações amorosas. Casa-se, separa-se e comete-se bigamia dentro de um ônibus. Tudo isso no caminho de um bairro a outro, da residência para o trabalho, não obstante a recente briga com o marido em casa, ou o orgasmo ocorrido imediatamente antes de embarcar, quando aproveitada a penumbra do ponto com a namorada. Sim, todos assumem um papel naquele âmbito de fugazes relações amorosas.

Dia desses, ao embarcar no ônibus, logo vi uma moça de costas, sentada próxima ao motorista. Cabelos ruivos lisos, ombros delicados e à mostra pela blusa de alcinha, pescoço laureado por uma tatuagem, parcialmente escondida pelos cabelos presos improvisadamente com uma caneta. Muito bela, por certo. Ao deslocar-me para conhecê-la, sou detido por uma jovem que subia quando o ônibus parou. Corpo bem delineado, nem grande nem pequena. Tinha cabelos castanhos lisos e mal cuidados, boca expressiva, nariz bem modelado. Por seus ombros um pouco curvados para frente e pelas olheiras (que tornavam mais belos seus olhos cor de mel) inferi logo que a jovem era estudante. Estava calçada com um sapato de salto alto que destoava de suas vestes simples — um jeans e uma blusa preta e comum. Estava expresso ali algum conflito em seu espírito.

Logo fiquei atraído pela moça. Disse-lhe — não através de palavras, naturalmente, mas principalmente com o olhar — o quanto a achava bela, que admirava mulheres dadas à intelectualidade e que estava curioso por desvendar suas incoerências e angústias. Com um olhar lânguido ela me agradeceu e concordou com o que eu disse. Admirada com aquela compreensão de si, constantemente me olhava, chamando-me timidamente para um relacionamento, tentava, com pouca habilidade, me seduzir. Na verdade, aquela jovem não é o tipo da mulher que seduz (mas arriscou-se, por causa do seu salto alto). Enfim, mostrei-me já seduzido, e por volta do sexto ponto de ônibus, estávamos pertencendo um ao outro. Estávamos em pé, o corpo dela direcionado ao meu: eis um símbolo de seu oferecimento a mim.

Mas pouco antes de descer entra uma mulher loira, atrevida. Ali estava a representante da mulher moderna, fatal, independente. Exibia jóias, maquiagem, bolsa e todos esses símbolos tão femininos. Tinha os seios imponentes, a boca libidinosa. Trinta e quatro anos, certamente – anos que lhes foram suficientes para não duvidar de suas próprias atitudes. Acabei traindo minha jovem com essa mulher, impensadamente, instintivamente. Nossos olhares roçaram-se até o momento em que desci do ônibus, onde ficaram a jovem, traída, e a mulher de gestos impávidos. A primeira, a ruiva, desceu invisível num momento qualquer destes vinte minutos de viagem. Adúltero, cheguei ao meu destino satisfeito com meus romances de ônibus.

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"No Museu Dos Vencidos estão reunidos todos os papeizinhos com os discursos de agradecimento não lidos pelos perdedores de todos os prêmios."
Michel Melamed