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O tapa do mar

Estou com o vício de visitar o mar ao menos uma vez por semana. Sendo avesso ao hábito do banho em água salgada, o agrado está na contemplação melancólica do ir e vir das águas, do surgir branco da espuma na imensidão negra. Fica claro que isso se dá à noite, uma vez que o sol por demais desagrada-me, e digamos que não seja muito afeito ao suor gratuito.

Aproximar-se do que é gigante faz o homem diminuir-se, e ei-lo fazendo pouco dos seus problemas, pilheriando de suas angústias, galhofando dos seus medos. O mar bate-lhe à cara dizendo: “quem pensas que és, fedelho insignificante?”.

bon appétit

As recomendações da semana (ver menu ao lado):

Música: Maria Rita
Cinema: Closer
Fotografia: Dani Bolina na Revista Sexy
Blog: Contraditorium

O tapado

Jamais fui um grande especialista em conversações, aliás, a introspecção e a análise entediada da conduta alheia sempre fizeram parte de mim. Fico deveras absorto quando saio com alguém que reencontra um amigo de há anos não visto e esta pessoa consegue dedicar-se a mais de dois ou três minutos num diálogo. Eis um dom que não possuo.

Talvez essa idiossincrasia seja negada apenas quando estou apossado de qualquer influência etílica (o diabo, para alguns crentes). Como sabem, sou um boêmio decadente, e a cerveja, uísque ou vinho sempre são um bom remédio para aturar os não-íntimos.

mas não puta.

Há mulheres que podem ser feias e bonitas a um só tempo. É o caso duma minha conhecida.

Cabelos mal tratados, juba bicolor, ruiva e loira. Boca forte, lábios expelidos, dentes retos. Nariz seguro, gordas bochechas.

Suas ancas salientes ressaltam seu porte — talvez o único consenso entre os homens que a observam. Qual uma fêmea reprodutora, muitos a anseiam por este símbolo da portadora de bom colo.

A pessoa não é menos que o físico. Tem o desleixo característico da menina que desafia os meninos, joga bola com eles, quer lhes vencer no pega-pega. Mas copiosamente chora ao ralar o joelho, e derrete-se por tratarem-na por frágil, feminina. É uma mimada.

Sexo fatal, irresponsável, sem cheiros outros que não o de mulher no cio. Seu admirador conserva em si a vontade de tê-la exclusiva, mesmo sabendo-a já possuída por outros.

É daquelas flores criadas em jardim, e que, se se aventuram a cultivá-la no vaso, fenece. É uma menina inconstante, mas não vulgar. Uma mulher pública, mas não puta.

O carro.

O carro é um direto influenciador nas relações viris de disputa entre os homens, algo que as teorias evolucionistas não previram de maneira nítida. Se Darwin estivesse vivo, estudaria os efeitos dum carro rebaixado na perpetuação da espécie, ou mesmo a relação entre o país de origem do carro importado e a quantidade de filhos que um indivíduo gera. Temos esse monstro, com quatro rodas, que rosna e fumega, abrindo suas asas para nos acomodar, como um ente potencializador da masculinidade. Sim, o carro é o verdadeiro símbolo sexual dos nossos tempos.

Ao se observar os carros parando em um sinal fechado este fenômeno se manifesta de modo evidente. A empáfia, o ar de superioridade que o homem-BMW olha para o homem-Fusca é patente, e este se reduz ao fingimento, à simulação de estar sozinho ali. Quantas não foram as multas que têm como causa o desespero dos machos que fogem desta situação vexatória, e que para não submeter-se à superioridade alheia ultrapassam o sinal vermelho?

Oralmente abstinente

Minha dedicação tem sido a tentativa de omitir qualquer opinião oralmente. O debate falado é sobremaneira emotivo, cansativo e desesperado. Geralmente, sai-se bem o dono da melhor expressão, não necessariamente o dono da razão. Mas às vezes é incontrolável o desejo de xingar, por exemplo, os cristãos-tradicionalistas-fundamentalistas.

as mulheres artistas

Sou assumidamente um admirador das mulheres artistas. Elas são prováveis conquistadoras de minha atenção – inda mais quando são belas.

óbvio

Será muito difícil identificar que o link do comentário de cada post fica acima do respectivo texto? (no balãozinho do canto superior direito). As pessoas têm dificuldade em perceber algo fora da similaridade.

a vitória do (des)encontro

Ele diz: interessante, você. Ela ri, ele retruca: boa resposta. Mais misteriosa impossível. Isso a torna ainda mais interessante. É como se você estivesse andando na praia e eu, galanteador, fosse acompanhando você e dizendo coisas para fazê-la falar alguma coisa. Mas a senhorita ri, faz expressões de agradabilidade mas, mantendo o recato, nada diz.

Ela dá uma breve gargalhada.

Sim… uma risada já é algo mais que um riso. Na risada há um esboço de voz. O perigoso é que nela duas expressões podem estar contidas: ou o desprezo ironizado, ou o agrado por ter se identificado.

Ela diz: “Boa!”

Enfim, o rapaz consegue que ela diga algo. Apesar de ser algo monossilábico e dúbio. “Boa” pela parte do desprezo ou do agrado?, ele se pergunta. B-o-a, e uma exclamação (talvez a parte mais ambígua seja a exclamação). Mas ele já se sente mais cofortável. É bom vê-la abrir a boca.

Ela murmura e seu mistério aumenta.

“O que não poderíamos estar conversando, usufruindo um do outro se ela não estivesse tão introspectiva…”, ele argumenta consigo mesmo.

Enquanto pensa nisso, alguém lhe chama. Mesmo sem saber o que ela pensa dele, diz que ainda a encontrará. É uma despedida unilateral, mas que, apesar de incipiente, já deixa saudades…

Memória de minhas putas tristes

Li Memória de minhas putas tristes, do Gabriel García Márquez:

Não preciso nem dizer, porque dá para reparar a léguas: sou feio, tímido e anacrônico. Mas à força de não querer ser assim, consegui simular exatamente o contrário. Até o sol de hoje, em que resolvo contar como sou por minha livre e espontânea vontade, nem que seja só para alívio da minha própria consciência. (p.8)

Um presente da Jane.

bon appétit

As recomendações da semana (ver menu ao lado):

Música: Red hot Chili Peppers
Cinema: As Luzes da Cidade
Fotografia: Andrzej Dragan
Blog: Brainstorm #9

calcinha

Que as novidades me perdoem, mas as calcinhas têm de ser pequenas. Vejo por aí mulheres a mostrar panos enormes, que saltam das calças jeans delinqüindo o quê feminino das jovens. As calcinhas, percebam, não por acaso são chamadas por um diminutivo pirracento, provocador. É uma parte do processo de transição que tem como seu auge a nudez. A calcinha é o símbolo da quase-nudez.

Diferentemente das cuecas, que possuem função óbvia e legitimada, a calcinha é um objeto indispensavelmente inútil, conforme manda o espírito feminino. A cueca é pragmática, objetiva, é a coerção aos sacolejos incômodos ao homem. A calcinha é um luxo. Dizer que ela serve para esconder é absurdo – esconder o escondido. Em verdade, ela é uma metáfora do sexo escondido (eis aí toda sua infâmia!).

Quão belo não é o pudorzinho das mulheres ao esconder a calcinha à mostra. O aviso arisco da amiga que percebe a gafe. “menina… sua calcinha está aparecendo!”. É como se escondesse um diamante dum ladrão, o pão dos esfomeados. A calcinha a aparecer é uma corrupção imperdoável para as mulheres.

As vermelhas são clássicas, mas as brancas, pretas e rosas não são desagradáveis. Rendadas ou de algodão, mais ou menos transparentes, o modelo alinhar-se-á com as intenções, com o volume do desejo por um atalho para o nu.

A calcinha, tal qual os demais objetos pessoais comuns à mulher, tem o papel de vangloriar sua dona, mas, diferente dos outros, tem um quê de sagrado (talvez por ter muito de profano). Esta mítica só é desfeita quando ela é despojada do corpo feminino, este sim, absolutamente sagrado. A calcinha, quando sobre um sapato masculino, misturada às meias num chão dum quarto de motel já não impressiona tanto assim.

Marilyn Monroe, por Richard Avedon

Marilyn Monroe, por Richard Avedon

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"No Museu Dos Vencidos estão reunidos todos os papeizinhos com os discursos de agradecimento não lidos pelos perdedores de todos os prêmios."
Michel Melamed