nov 27, 2008
Concordar, paradoxalmente, é a melhor forma de se desvencilhar dum indivíduo enfadonho e estulto. “Ah… ontem eu fui na balada e fiquei com Ana, aquela loira gostosa, lembra?”. Um sinal afirmativo com a cabeça (quem é Ana?) e um risinho de canto-de-boca é suficiente para satisfazer o ego do infeliz. Se não funcionar, algo como “você é o cara!” certamente o deixará contente e espiritualmente alimentado.
nov 25, 2008
Da poltrona cáqui já desbotada de sua sala, fumou um charuto em homenagem à paixão que lhe destituíra o tão caro cotidiano-tédio (a paz trivial da vida, afirmava, era o melhor estado de espírito possível). Naquele momento, era a vez de se destituir dela – ou melhor, foi à busca da consciência de que as paixões são doenças, algum vírus passageiro.
Toda consciência é uma ou mais concepções perenes num indivíduo, o que significa dizer que a paixão se apresentava para ele como um erro proposital, uma entrega burra a uma mulher certamente menor que sua projeção apaixonada. Tragava e ria de si:
“Ridículo. Caralho… eu sou ridículo”.
nov 24, 2008
Se há um sujeito a ser admirado, esse é o cientista. Não o leigo instruído, com suas suposições falaciosas e discursos infundados. Refiro-me ao racionalista e à sua empáfia – notadamente um ser superior aos crentes desavisados. O cientista, e todas as suas questões insolucionadas, é o homem que salva-nos da vulgaridade comum, e nos apresenta alguma sofisticação, alguma elegância. Curvo-me, com um sentimentozinho de impotência, ao cientista.
nov 22, 2008
Às vezes acontece-me ser acometido por algo que se pode chamar de preguiça moral. Tome como exemplo uma fila que algum inconveniente resolve furar, passando descaradamente à frente de quem primeiro esperava. Se arrebatado pela referida doença, ignoro o espertinho, e chego até mesmo a criar certo ódio dos que reclamarem da peraltice.
nov 17, 2008
Uma competência inata aos seres humanos é o reclamar de sua condição. Ou melhor, dar gritinhos cretinos do tipo “tenho a cabeça doendo” ou “está um calor de matar”, como se a qualquer interlocutor fosse interessante saber desses insignificantes incômodos – até mesmo para quem os sente.
Aí está algo para se levar em consideração: a vítima que todos ensaiamos ser, o deficiente, o mártir. Eis o princípio de funcionamento de, por exemplo, blogs como este, sempre alegando “dores de cabeça”, como a que acabo de descrever.
nov 12, 2008
Alguns leitores vêm-me reclamar da falta de textos aqui – algo que me deixa com certo incômodo. O fato é que este blog tem como conteúdo primeiro os caprichos de um personagem que vai e vem sem qualquer controle meu. O tal do “Dom”, pode-se dizer, é cheio de manias. Paciência, pois, com ele senhores…
nov 7, 2008
As viagens, por menos duradouras que sejam, sempre nos cansam. Encarar apenas o horizonte da estrada, as repetitivas placas de sinalização e as faixas do chão da pista nos leva ao desenvolvimento da consciência, e nada mais cansativo do que desenvolver a consciência.
nov 4, 2008
Primeiro, e sempre, as pessoas precisaram de água para sobreviver. Depois, as energias (elétrica, eólica, química) se tornaram necessidades básicas que vão além do oferecido pela primitiva água. Caminhamos para algo muito mais complexo e sofisticado: a indispensabilidade da rede virtual.
A disponibilidade de água é uma questão de vida ou morte. A ausência de energia, pelo menos para o cidadão comum, é um obstáculo ao comodismo. Já a falta de rede é um problema de solidão.