Desportos domésticos
Em minha infância fui um atleta e tanto – minha casa foi uma espécie de centro poliesportivo onde eu atuava com desempenhos admiráveis nas diversas modalidades possíveis e impossíveis que criava. A que primeiro lembro, pois talvez tenha sido a mais divertida, é o Tênei, esporte que tinha atributos do Tênis e do Vôlei. Do primeiro herdou a bola e as regras de apenas dar um toque nela para lançá-la ao adversário. Do vôlei empregava-se a rede alta e o sistema de pontuação – já que o tênis, esporte metido a besta, possui um sistema deveras complexo e enjoado de pontuar.
O interessante do tênei é seu surgimento espontâneo e adaptativo. O fato de existir uma quadra de tênis vizinha à minha casa, por exemplo, tornou mais fácil a aquisição das bolinhas. Graças aos maus jogadores, e da falta de um alambrado suficientemente alto, choviam bolinhas no nosso quintal em dia de jogo. “O homem da quadra”, como eu e meus amigos que também eram vizinhos daquela fonte milagrosa de bolinhas convencionamos chamar, vinha de vez em quando, após o jogo, perguntar se não caíra alguma em nossos quintais. Como o leitor deve desconfiar (não se questiona os fundamentos da moral infantil) nós negávamos sempre ter visto qualquer bola cadente.
Havia euforia ao ver os refletores ligados, sempre às 19 horas, e apostas várias para saber quem teria um saldo maior naquela noite.
Como se vê, pouco do perímetro de privilégio cabia ao meu quintal – motivo pelo qual perdi inúmeras bolinhas de gude em apostas irracionais e vaidosas, principalmente com George, um sagaz interiorano, matuto, por assim dizer, que veio morar em nossa cidade relativamente grande.
Demonstrada a origem das bolinhas de tênis, passemos a outra nuance que mostra a adaptabilidade do tênei: a rede, que era o portão da minha casa, vinha a calhar nos dias em que meu pai proibia-me de sair de casa. O oponente tinha sua quadra limitada pelo passeio, enquanto a minha tinha o perímetro da garagem. Sim, as quadras tinham tamanho diferente, a garagem era substancialmente maior, o que não impedia as minhas vitórias constantes. Eu treinava muito, como todo bom atleta. Quando sozinho, a parede da garagem era o adversário ideal – o que, salvo a ausência da raquete, me fez inventar o squash, infelizmente depois dele já ter sido inventado.
Em outras oportunidades falarei das corridas de Fórmula Tampinha 1, das escaladas aos montes mangueretes e goiabísticos, da arte marcial com o uso de bastão-vassoura, da corrida de formigas, dos grandes desafios contra as feras Paquito e Chitara…






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