Aquele não tinha sido mais um carnaval. Suas amigas pilheriavam, diziam que todo aquele entusiasmo fazia parte de algo que chamavam de paixão. Mas não era isso que ela entendia. Após alguns coquetéis, pulos e suor, após dois ou três beijos de língua em desconhecidos transeuntes (ou danceuntes, já que antes de se transitar, nos carnavais, dança-se), encontrou aquele sujeito antigo, de infância, desses que possuem vaga quase que garantida em situações desobstruídas — e quais são as obstruções dos carnavais?

O antigo não hesitou. Beijou-a, cheiro-a no cangote, roçou, se misturou em seu suor e calor momesco. Importantíssimo salientar que em carnavais as coisas não acontecem com qualquer método, antes, se viabilizam através de sugestões gestuais, pistas, aparências mínimas presentes nas expressões e nos olhares. Assim se iniciou o contato da nossa foliã com seu antigo. Um olhar e um sorrizinho sugestivo, no máximo.
As amigas excitaram-se com o encontro (todos devem saber que uma peculiaridade dos carnavais é não apenas praticar despudores, mas observar as transgressões sexuais alheias).

Não vou cansar o leitor com minúcias desnecessárias. Digo apenas que a expressão “minha colombina” ficara ecoando na mente de nossa personagem durante todo o dia seguinte. Na ocasião em que fora dita, num quartinho vagabundo de hotel (vagabundo e romântico), a moça segurava os lençóis da cama que rangia, lençóis molhados de suor de ambos, que, aliás, tornara-se apenas um, líquido com o ingrediente da volúpia.
“Minha colombina”, ela repetia para as amigas. “Paixão”, elas retrucavam. Uma noite de carnaval, certamente. Passageira, transitória, fulgaz, esquecível — como todas as noites de carnaval.