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Feira de Santana

Caetano, em seu Obra em Progresso:

“Já faz anos que acho Feira de Sanatana charmosa. Sua natureza de entroncamento no nó do Recôncavo com o Sertão; sua prosperidade que resultou em elevação do nível intelectual de gerações novas (quando eu era menino, cidades como Santo Amaro e Cachoeira olhavam para Feira como se fossem professores e poetas olhando para um brutamontes); seu contingente de pessoas avisadas e civis. O paralelo com São Paulo sempre me voltou à mente. Hoje, com Feira liderando a vida acadêmica da região, acho que Santo Amaro, como o Rio, está com um ar de quem perdeu o bonde.”

bon appétit

As recomendações da semana (ver menu ao lado):

Música: Janis Joplin In Concert
Cinema: O Poderoso Chefão
Fotografia: Miriam Bottan
Blog: Marconi Leal

Noite de Carnaval

Aquele não tinha sido mais um carnaval. Suas amigas pilheriavam, diziam que todo aquele entusiasmo fazia parte de algo que chamavam de paixão. Mas não era isso que ela entendia. Após alguns coquetéis, pulos e suor, após dois ou três beijos de língua em desconhecidos transeuntes (ou danceuntes, já que antes de se transitar, nos carnavais, dança-se), encontrou aquele sujeito antigo, de infância, desses que possuem vaga quase que garantida em situações desobstruídas — e quais são as obstruções dos carnavais?

Beijo

O antigo não hesitou. Beijou-a, cheiro-a no cangote, roçou, se misturou em seu suor e calor momesco. Importantíssimo salientar que em carnavais as coisas não acontecem com qualquer método, antes, se viabilizam através de sugestões gestuais, pistas, aparências mínimas presentes nas expressões e nos olhares. Assim se iniciou o contato da nossa foliã com seu antigo. Um olhar e um sorrizinho sugestivo, no máximo.

As amigas excitaram-se com o encontro (todos devem saber que uma peculiaridade dos carnavais é não apenas praticar despudores, mas observar as transgressões sexuais alheias).

Carnaval

Não vou cansar o leitor com minúcias desnecessárias. Digo apenas que a expressão “minha colombina” ficara ecoando na mente de nossa personagem durante todo o dia seguinte. Na ocasião em que fora dita, num quartinho vagabundo de hotel (vagabundo e romântico), a moça segurava os lençóis da cama que rangia, lençóis molhados de suor de ambos, que, aliás, tornara-se apenas um, líquido com o ingrediente da volúpia.

“Minha colombina”, ela repetia para as amigas. “Paixão”, elas retrucavam. Uma noite de carnaval, certamente. Passageira, transitória, fulgaz, esquecível — como todas as noites de carnaval.

Melhor que o Faustão

Quando trabalhava no bar de meu avô, por lá esporadicamente passava um homem feito, barbudo e barrigudo, sempre com algum suor na cara. Dizia que demorara de passar ali por causa dos seus afazeres, o trabalho, dizia ele, estava-lhe sugando. Meu avô sempre lamentava muito sua ausência quando lá ele chegava, e dizia que falara dele a semana toda, o que, naturalmente, eu confirmava (não sou besta nem nada). Mas aqui não importa os falsos lamentos do velho Epifânio — antes interessado no cliente que no amigo — mas a constante justificativa do homem suado. Tal qual ele, tenho priorizado o ofício, e não é demais dizer que até mesmo minhas feições já estão com marcas de trabalho.

Workaholic
O pior é que isso me vai agradando. Sou um Workaholic, por assim dizer.

Não deixar de exercer minha individualidade, como costumo falar, tem se tornado difícil. Mesmo porque, passamos a nos perguntar o quanto do ofício passa a ser nossa individualidade, e vice-versa.

Pensando nisso, chego à conclusão de que este blog ainda é parte dela — ou sua expressão. Se não for parte dela, quando nada é um ponto de encontro com o que um dia fui, ou com o que um dia tive tempo de ser. Enfim, filosofias à parte, o fato é que resolvi firmar um compromisso com o leitor e comigo próprio (com a vantagem de que lutar contra si é ter a certeza de ganhar). Aos domingos, ou pelo menos aos domingos, este blog será atualizado. Trata-se de uma obrigação trivial, mas quase uma irresponsabilidade, dada minha atual condição profissional. Mas está feito: prometo ser melhor que o Faustão.

*O Café está tecnicamente em transição. Caso algum acidente aconteça, relevem.

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"Considero a crueldade e o assassínio em massa coisas más e desejava que todos concordassem com a minha opinião. Isto não evita que outros desejam tanto a crueldade como o assassínio em massa, tal como demonstra o procedimento de todos os que ocupam posições de mando e da maioria da humanidade."
Bertrand Russel