O catolicismo é decadente. As igrejas católicas servem de asilo ocasional para alguns idosos incultos. Chegam a dormir nos cultos, os velhos… Quem os substituirá?
Modéstia
De Arthur Schopenhauer:
“Quem fez da modéstia uma virtude esperava que todos passassem a falar de si próprios como se fossem idiotas.
O que é a modéstia senão uma humildade hipócrita, através da qual um homem pede perdão por ter as qualidades e os méritos que os outros não têm?”
Surpresos
— Estou surpresa em conhecer um homem erudito e fino que nem você. Gostei…
— Estou surpreso em conhecer uma mulher que goste de homens finos e eruditos…
Assimetria

Entre os erros humanos, crer na simetria das relações é dos mais graves. “Reciprocidade”, dizem. Tolo, o homem apaixona-se e logo procura saber se a dama é mais ou menos paixão que ele. “Que ela sinta, pelo menos, o que eu sinto”, entramos em consenso.
A ciência de aferir sentimentos — intrigante e inexata — mostra-nos muitas explorações e poucos mutualismos. A mulher subjugada pelo macho impávido, o homem-servo da mulher mandona. E não mostrou a história que o capitalismo suplanta o socialismo? O forte sobre o fraco, e não o forte em prol do fraco? Estados Unidos, e não Cuba?
Sábio Quintana:
“Não exijo que esse alguém me ame como eu o amo, quero apenas que me ame, não me importando com que intensidade. Não tenho a pretensão de que todas as pessoas que gosto, gostem de mim…”
Sim, a assimetria geralmente dá certo. Não obstando a existência de românticos idealistas (solteiros) apologistas da democracia libertária.
Os cúmplices do amor

Não fossem os cúmplices, o que seria dos apaixonados? A empregada doméstica que se dispõe sair com a jovem senhorita, acoitando o encontro com o vizinho. A tia, que é obrigada pela sobrinha a convidá-la a passar dias em sua casa, para que a jovem encontre seu enamorado. O amigo, que marca um jogo de futebol com toda a turma, em função do adultério de seu companheiro.
Quem não foi ou nunca teve desses cúmplices nunca amou. Trata-se de um papel dramático, novelesco até. Vai de encontro com toda encenação que exercemos em sociedade, descaracteriza o moralismo hipócrita necessário à manutenção do status quo. Ser cúmplice do amor é ser um tanto imoral, deliciosamente imoral.
A fila

A fila é dos mais reprováveis institutos sociais. Não sei se por obrigar-nos à unicidade de objetivos, castrando-nos a individualidade, dizendo “tu queres o que todos querem”, não sei se pela associação às classes sociais menos abastadas (que horror, a fila do INPS!). Sim, porque a fila tem um quê de plebeu, são os esfomeados em consenso para repartir o pão. É a organização dos miseráveis em caminho à esmola.
A fila mostra que os pobres são capazes de unirem-se para dividir a miséria, mas não para derrotar os ricos. Grande expressão da covardia e resignação da massa é a fila.
Chove na Bahia
Chove na Bahia, e chover, para mim, é grande oportunidade para a reclusão: gabinete, café e leitura. Vinho, talvez. Nostalgia sempre.
E ouvir Tchaikovsky quando chove é divino.
O inferno, amor.
Todos nós somos, a um só tempo, demônios e vítimas de diabruras. Os nãos com que açoitamos as pretendências alheias ricocheteiam em nossas caras, como tapas de indignidade, como alertas de impotência.

Ou o leitor nunca amou uma jovem de cabelos escorridos ao ombro, de sorriso largo e lábios lascivos? Ao declarar-se o apaixonado, ela lhe diz descaradamente: “Não, por enquanto não. O problema é comigo, não com você”.
E quantas dessas descarações já não fizera também o renegado?
Quantos seios túrgidos ansiamos, quantas mãos quisemos segurar em praças públicas em vão. E quantas delas, demônios envergonhados, evitamos. São esses os personagens do inferno dos amantes: simultaneamente diabrados e diabrandos.
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