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A desastrada.

A Desastrada

Das mulheres, a desastrada é das mais admiráveis. Trato menos da secretária que enrola as pernas ao servir o café ao patrão, ou da intelectual que consegue derrubar uma prateleira de livros numa biblioteca. Refiro-me à desastrada na vida, àquela que não sabe em que bolso esqueceu o beijo dado a um amante eventual, e que de repente, numa lavagem qualquer de roupas sujas, percebe ele surgindo do bolso de guardar moedas pequenas, e, surpreendida, acaba colocando aquele mimo em lugar da polpuda fortuna contida em sua bolsa de notas grandes. E se arrepende.

Subterfúgio

Existem gestos que servem apenas para defender idéias… alheias! Machado de Assis, em seu conto A Herança, demonstra. Perguntada sobre a vontade de casar,

“Eugênia respondeu com um sorriso e baixou os olhos, gesto que podia dizer muita coisa e nada.”

Grande arte a de procrastinar decisões assim, presentemente, dizendo “não sei”, “veremos”, “talvez”. Ou sem dizer, tal qual Eugênia. E curioso é que o interlocutor sempre, sempre tem a visão que a esperança lhe indica — notadamente quando falamos de paixão.

Brega

A propósito da chiada do texto anterior, deixo o que diz a madastra dos burros:

A palavra brega deriva da Rua Manuel da Nóbrega, em Salvador, rua esta que ficava numa região de meretrício da capital baiana. Com o tempo, a primeira sílaba da placa com o nome da rua foi ficando corroída e as pessoas passaram a se referir aos prostíbulos dessa região como “brega”. A partir disso, o termo se espalhou e, até os anos 1970, tinha também o sentido de “desordem”, “confusão”, através de expressões como: “isto aqui está o maior brega!”, “que brega é esse?”, etc, associando um ambiente, ou situação qualquer, ao caos de um “brega”

Evaldo Gouveia, o brega e a bossa.

Nélson Gonçalves

Nélson Gonçalves gravou mais de 60 discos, e é o segundo maior vendedor de discos do Brasil, atrás apenas de Roberto Carlos. Certamente ninguém mais lhe tomará o trunfo, consequencia da era dos downloads. Gonçalves vendeu mais de 65 milhões de unidades, o que lhe faz ser um grande cantor, certamente. Não posso dizer que desgosto de suas músicas, mas sua voz forte, com engulhos no final dos versos cantados, me causam uma impressão enjoativa. Acho que João Gilberto, ao surgir como uma alternativa ao modelo vigente à época, sentiu algo semelhante, lançando o chiste  “Desafinado” e outras músicas que exaltavam a simplicidade no cantar, com uma extrema complexidade harmônica. Nelson Gonçalves é um licor doce e meloso, João Gilberto é um uísque bem envelhecido.

Mas em 57, quando João lança seu primeiro disco, Nelson já tinha lançado mais de cinquenta. Altemar Dutra, outro ícone da música romântica brasileira, considerado brega por muitos, nem tinha iniciado sua discografia. Em 63 foi lançado seu primeiro disco. Dutra já não tem a voz açucarada de Nelson, e sua atuação como entusiasta do bolero é positiva — apesar de não ser algo novo, uma vez que outros cantores, inclusive o próprio João Gilberto com Besame Mucho, já o tinham feito. Altemar Dutra, como Nelson Gonçalves, é um cantor do povo, com letras simples, mas profundas, música medíocre e vozes exuberantes. (“Medíocre”, sim, pois não se comparará a vanguardismo da Bossa Nova, por exemplo, com o que representam ambos para a MPB).

João Gilberto

E é isso que é o brega. Música feita menos para ser complexa artisticamente do que para servir de inspiração às paixões não correspondidas, aos amores incompreendidos, etc. Quem discorda que a ênfase na obra de Nelson Gonçalves, Altemar Dutra, Odair José, Waldick Soriano, Amado Batista e outros tantos seja não a inovação e o experimentalismo musical e sim os corações da massa?

*  *  *

Por trás desses ídolos populares há um nome pouco famoso, mas responsável por grande parte do que foi produzido na música pop-romântica-brega brasileira: Evaldo Gouveia. Cearense da cidade de Igatu, já compôs mais de 850 músicas, segundo ele próprio, dentre as quais clássicos popularíssmos como “Sentimental Demais”, “Que queres tu de mim”, “O trovador”, “Brigas” e outras tantas que já fizeram chorar inúmeros apaixonados.

Evaldo Gouveia

Interessante é que Evaldo Gouveia é melhor cantor que Nelson Gonçalves e Altemar Dutra, os dois maiores intérpretes de suas canções. É inevitável ouvir Evaldo e não me remeter às vozes de cantores de botequim, boêmios que frequentavam o bar de meu avô quando eu ainda era criança. Voz cortante e emocionada, bem acompanhada por contra-baixo, violão e piano. Abaixo, algumas citações de Evaldo durante seu show, frases boêmias, bregas e românticas:

“Bebo, não é por vício não é por nada… é que no fundo do copo eu vejo o retrato da mulher amada.”

“Eu tenho gravadas mais de 850 músicas. Para cada mulher que me largou eu fiz seis.”

Gosto da simplicidade de Evaldo Gouveia, que não é cafona, como muitos de seus intérpretes. Sugiro que os leitores apreciem esse vídeo, onde ele canta um pouco de suas principais composições, acompanhado de um público entusiasmado. Ouça e constate que poucos brasileiros nunca se aproveitaram da melancolia dos versos evaldianos.

PS: Quero ouvir uma música de Evaldo Gouveia interpretada por Maria Bethânia. Alguém conhece alguma?

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"Talvez não seja mais do que o meu sonho...
Esse sorriso será para outro, ou a propósito de outro
Loura débil...
Álvaro de Campos