Só egoístas.

Um amigo disse-me que hierarquiza suas amizades. Não só as amizades são hierarquizadas, digo eu, como classificadas conforme as aptidões e qualidades do amigo. Qual seria o amigo ideal para discutir a obra machadiana ou a crise econômica mundial? Qual seria o amigo ideal para embriagar-se e passar uma noite de futilidades e papos desnecessários? E um e outro são amigos, um e outro exercendo sua função de amigo (sem esquecer dos que improvisadamente servem a qualquer dos misteres).
De certo modo, os amores também são assim: há os freneticamente lascivos, onde o sexo é a tônica, em que os desejos da carne sustentam os laços afetivos. Há também os lúcidos, onde a consciência do ser do outro gera a identificação, a linguagem comum necessária à efetivação do gostar. E ambos são amores, ambos podendo, ou não, utilizar-se do recurso do outro para se fortalecer.
As amizades são múltiplas e simultâneas, e os amores, perigosamente, também podem ser. Eis uma grande justificativa para o adultério: a incapacidade do outro ser completo. Ou é isso, ou aceita-se a insatisfação, ou se a elimina de vez e procura-se a perfeição em outro porto.
Oh, sim senhores: somos egoístas. Só egoístas.






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