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Tênis

Sim, ingrato leitor, isto aqui vai mal. Das mazelas que acometem o homem consciente, o homem de espírito sensível (não digo o sensível-melodramático, mas o sensível-sagaz), uma das que mais lhe corroem o amor-próprio é perceber-se tragado pelas práticas e ambições vulgares. Oh… sim, sei que os homens conscientes não têm amor-próprio, apenas um senso de autoconservação necessário às suas constatações perversas, como a que agora faço. Mas, como disse, tenho me tornado vulgar, e esses rigores teóricos não me têm apetecido ultimamente.

Por exemplo, estou numa mania reprovável de acumulação de capital. Poucos réis, confesso, mas o suficiente para ter sonhos com um automóvel com dois ou três anos de uso ou um terreninho num lugar onde não corra esgotos. Ter sonhos, repito para os malandros.

Eis que o trabalho vai me levando o tempo, e sempre ouvimos dizer que, se há trabalho, deve haver luxo – cara palavra, cara palavra. Trabalhe, diz o raciocínio corrente, mas não deixe de provar tintos franceses e maltes escoceses.

E as pequenas gostam disso. Tenho uma apaixonada por meus tênis, digo, por mim. Branca, cabelos escorridos e usuária compulsiva de shopping’s. Um pitéu, por assim dizer. Mas, uhn… penso em achar alguma que prefira sapatos italianos.

Enfim, deixemos de lado o charlar. Rio para não espantar de todo os três leitores que me restam. Vou mesmo é com o príncipe da caatinga:

“Eu sou eu, e alguém quer que eu não seja mais eu. Eu resisto em ser eu: não quero ser você. Eu quero ter as minhas coisas, não me tire aquilo que é meu. Eu não quero ter a pátria de ninguém: eu quero ter a minha pátria. Eu não quero conhecer as praias de ninguém: quero estar na minha praia. Eu não quero a comida de ninguém: quero comer o meu pequeno repasto”

Dos pressupostos do macho.

Aos homens não é permitida a ausência da canalhice. Ser cafajeste é pressuposto básico para a competência sexual: os que ignoram tal fato serão bons amigos e bons conselheiros – podem até ser aclamados como os mais legais, inteligentes, probos, competentes, sinceros e carinhosos de todos os homens.

Mas o macho, esse mente. O macho engana e disfarça, disfarça o disfarce positivo necessário à efetivação do coito.

O pior, caríssimo bom homem, é que as mulheres sabem disso. E sempre lhe dirá: “queria estar apaixonada por você. Por que fui logo gostar daquele cafajeste?”. Porque ele é cafajeste, ora. E ela sabe disso. E você, poço de probidade, acalentará ela sempre, e o macho, sempre, exercerá seu papel de macho.

Constatações últimas

- As práticas que influenciam as decisões políticas são mais sujas do que nossa vã maldade desconfia…

- A solidão é um estado de espírito formidável para que o sujeito dedique-se ao trabalho. O bom profissional é o status formidável para que o sujeito encontre uma pequena. Enfim, a solidão leva às pequenas.

- Torcer para o Flamengo e comer quibes em botequins de esquina não fazem tão bem ao estômago.

naco de terra

naco de terra

Está decidido. Acumularei os proventos para comprar um sítio – ou qualquer naco de terra. Viverei gozando as benesses da economia de subsistência (lembro-me disso das aulas de Geografia). Plantar verduras, frutas e alguns legumes. Criar uma vaca leiteira e umas boas cabeças de galinha caipira que dêem ovos de gema avermelhada.

Vá lá… também comprarei algumas coisas no Armazém de Seu Zé, notadamente o pó do café, o azeite e a pinga (esqueço-me da pimenta).

Quanto à burguesia, não deixarei de a visitar. Joaquim, Fiódor, Hugo, Eça e todo o pessoal vão me deixar por dentro do que estiver ocorrendo nos salões e alcovas do povo nobre.

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"Considero a crueldade e o assassínio em massa coisas más e desejava que todos concordassem com a minha opinião. Isto não evita que outros desejam tanto a crueldade como o assassínio em massa, tal como demonstra o procedimento de todos os que ocupam posições de mando e da maioria da humanidade."
Bertrand Russel