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Eis um coroa

O cara do quaiscalingudum.

Quando visitei Jaçanã

Das grandes dificuldades da minha infância, lembro-me especialmente de não conseguir prender tampinhas de cerveja nos dedos. Sim, no bar em que vivi boa parte dos meus divertimentos de menino, como um observador e analista das relações boemias, era prática o amassar as tampinhas e prendê-las nos dedos para fazê-los de baquetas, cujo tambor era não mais que a própria mesa de bar, daquelas de metal, salpicadas de ferrugem e cheirando a cerveja derramada.

Enquanto a fraqueza nos dedos não me permitia a façanha, ouvia atento músicas belíssimas, ao mesmo tempo que simples e misteriosas. Entendia pouco do entusiasmo em que eram entoados os versos de amor nos sambões, onde mulheres de quartos generosos dançavam tão generosamente com os ébrios da mesa. Àquela época, de pouco mais ou menos que uma década na idade, entendia pouco ou nada de amor, que os coroas do samba não se fartam de cantar.

Lá conheci Jaçanã, a moradia que Adoniran Barbosa imortalizou em sua canção Trem das 11. Trata-se do hino da boa desculpa que os mancebos dão a suas amadas, que, verdadeira ou falsa, serve à natureza menos dedicada do homem, notadamente o boêmio – o que não significa, de modo algum, minoria de amor (por prova, vejam os cabras que despedem-se de sua dama apenas para chorar a saudade dela num botequim).

Inda hoje ressoa em meus ouvidos o “quais, quais, quais, quais, quais, quais”, o “quaiscalingudum”, e todas essas onomatopéias que Adoniran usou, que tem a mesma origem da minha tampinha amassada: ambas querem suprir a necessidade do instrumento, ante a premente vontade de cantar um saudoso samba. São improvisos que tem um charme ausente na música bem elaborada, sem desmerecê-la, obviamente.

Hoje em dia já não sinto dificuldade em amassar tampinhas, e muitas vezes canto sambas mal entendidos por meninos que chegam ao bar para comprar guloseimas.

Uma bichinha complicada com uma poesia não menos densa.

Que coisa. Não é que esqueci de O Outro, a sete do disco aí de baixo, cantado por Adriana Calcanhoto? Sim, sim… E trata-se de um poema de Mário de Sá-Carneiro musicado por ela, autora da homenagem ao poeta português feita aqui no título.

Ahnm… Sá-Carneiro é para mim um gênio. Prova é seu Caranguejola, que deixo com vocês por hoje:

Caranguejola

Ah, que me metam entre cobertores,
E não me façam mais nada!…
Que a porta do meu quarto fique para sempre fechada,
Que não se abra mesmo para ti se tu lá fores!

Lã vermelha, leito fofo. Tudo bem calafetado…
Nenhum livro, nenhum livro à cabeceira…
Façam apenas com que eu tenha sempre a meu lado
Bolos de ovos e uma garrafa de Madeira.

Não, não estou para mais; não quero mesmo brinquedos.
P’ra quê? Até se mos dessem não saberia brincar…
Que querem fazer de mim com estes enleios e medos?
Não fui feito p’ra festas. Larguem-me! Deixem-me sossegar!…

Noite sempre p’lo meu quarto. As cortinas corridas,
E eu aninhado a dormir, bem quentinho – que amor!…
Sim: ficar sempre na cama, nunca mexer, criar bolor -
P’lo menos era o sossego completo… História! Era a melhor das vidas…

Se me doem os pés e não sei andar direito,
P’ra que hei-de teimar em ir para as salas, de Lord?
Vamos, que a minha vida por uma vez se acorde.
Com o meu corpo, e se resigne a não ter jeito…

De que me vale sair, se me constipo logo?
E quem posso eu esperar, com a minha delicadeza?
Deixa-te de ilusões, Mário! Bom édredon, bom fogo -
E não penses no resto. É já bastante, com franqueza…

Desistamos. A nenhuma parte a minha ânsia me levará
P’ra que hei-de então andar aos tombos, numa inútil correria?
Tenham dó de mim. C’o a breca! levem-me p’rá enfermaria -
Isto é: p’ra um quarto particular que o meu pai pagará.

Justo. Um quarto de hospital – higiénico, todo branco, moderno e tranquilo;
Em Paris, é preferível, por causa da legenda…
De aqui a vinte anos a minha literatura talvez se entenda;
E depois estar maluquinho em Paris, fica bem, tem certo estilo…

Quanto a ti, meu amor, podes vir às quintas-feiras,
Se quiseres ser gentil, perguntar como eu estou.
Agora no meu quarto é que tu não entras, mesmo com as melhores maneiras.
Nada a fazer, minha rica. O menino dorme. Tudo o mais acabou.

Mário de Sá-Carneiro

Brilhante, não?

Público, Adriana Calcanhoto.

Adriana Calcanhoto é daquelas artistas complexas e prosaicas a um só tempo. O termo “artista”, aqui, está deitado numa rede gozando duma brisa fresca, tão confortável que é confirmá-la nesse status. Constata-se fácil isso quando se ouve Público, um disco de 2000, ao vivo, gravado sobretudo no Rio de Janeiro.

O disco já começa bem, quando após Adriana ser anunciada no palco, ouve-se o eco que me lembra o barulhinho do mar dentro de um búzio, se misturando com os aplausos de recepção da platéia. É a introdução para E o mundo não se acabou, de Assis Valente, primeira faixa do disco, um samba maroto que conta a estória de alguém que se dissipa confiando no fim do mundo. E o mundo não se acabou.

Na três vem Clandestino, de Manu Chao, bem recepcionada na voz melíflua de Adriana, dizendo que Me dicen el clandestino/Yo soy el quebra ley. Na quatro o Remix Século XX, de ninguém menos que Waly Salomão, um poema novo que traz um banquete de pronúncias, indo de Sputinik a Buceta , passando por Sagarana e Parangolé (repetido mixado na última faixa, o Remix fica mais misterioso e moderninho).

Nove: um samba-reggae que é a melhor de todas as apologias feitas a Caetano:

Vamos comer Caetano
Vamos devorá-lo
Degluti-lo, mastigá-lo
Vamos lamber a língua

Isso tudo já é mais do que se quer para tornar Público grande. Mas ainda há coisas como “O nosso amor não vai parar de rolar/De fugir e seguir com um rio” ou “Rasgue as minhas cartas/E não me procure mais” ou mesmo “Entre por essa porta agora/e diga que me adora”, que me trazem sempre suspeitas por suas aparições em novelas da Globo, e são pouco ou muito piegas, mas que tem fundamental função no disco: fazer chorar os amantes.

Estou mais no público de Adriana depois de absorver Público.

*Leiam o blog Pelos Ares, de Adriana Calcanhoto.

bon appétit

As recomendações da semana (ver menu ao lado):

Música: Céu
Vídeo: A Conversão…
Fotografia: 1500 Gallery
Blog: Ed Motta

Magnifique Fleur

Qual o tipo de mulher, pergunta-se, como se os quereres já não tivessem virado poesia e indefinição. A cada um respondo uma dama – e não-damas, por vezes. Aos senhores, apresento uma pequena branca e confusa. Belas panturrilhas e não menos talentosos pés. Sim, cabelos pretos, com pequenos molhos sobrados no anterior do ouvido (quase dando nas bochechas generosas e mordíveis).

Exibe-se, nossa menina, e é entusiasta das artes e dos anos d’ouro – dançou o chachachá e valsas nobres em salões grandiosos, algo que ela mesmo ignora. Enfim, é uma “Magnifique fleur”, sagaz e ajuizada.

Dos beijos gosta dos lentos, onde desfalece e entrega-se. Ahn… uma autêntica mulherzinha, de pétalas sensíveis ao toque. Uma Monalisa.

Menstruação.

Já me perguntam se o blog virou menstrual. Talvez. As coisas aqui surgem apenas mensalmente, após cólicas e mal-estar, e, confesso, as produções não são lá aproveitáveis (obstam até o tesão de muitos). Mas, deixem-me cá com minha desídia, os senhores não perdem por esperar.

(há nesse final uma risada do Esqueleto, do He-man).

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"Talvez não seja mais do que o meu sonho...
Esse sorriso será para outro, ou a propósito de outro
Loura débil...
Álvaro de Campos