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Público, Adriana Calcanhoto.

Adriana Calcanhoto é daquelas artistas complexas e prosaicas a um só tempo. O termo “artista”, aqui, está deitado numa rede gozando duma brisa fresca, tão confortável que é confirmá-la nesse status. Constata-se fácil isso quando se ouve Público, um disco de 2000, ao vivo, gravado sobretudo no Rio de Janeiro.

O disco já começa bem, quando após Adriana ser anunciada no palco, ouve-se o eco que me lembra o barulhinho do mar dentro de um búzio, se misturando com os aplausos de recepção da platéia. É a introdução para E o mundo não se acabou, de Assis Valente, primeira faixa do disco, um samba maroto que conta a estória de alguém que se dissipa confiando no fim do mundo. E o mundo não se acabou.

Na três vem Clandestino, de Manu Chao, bem recepcionada na voz melíflua de Adriana, dizendo que Me dicen el clandestino/Yo soy el quebra ley. Na quatro o Remix Século XX, de ninguém menos que Waly Salomão, um poema novo que traz um banquete de pronúncias, indo de Sputinik a Buceta , passando por Sagarana e Parangolé (repetido mixado na última faixa, o Remix fica mais misterioso e moderninho).

Nove: um samba-reggae que é a melhor de todas as apologias feitas a Caetano:

Vamos comer Caetano
Vamos devorá-lo
Degluti-lo, mastigá-lo
Vamos lamber a língua

Isso tudo já é mais do que se quer para tornar Público grande. Mas ainda há coisas como “O nosso amor não vai parar de rolar/De fugir e seguir com um rio” ou “Rasgue as minhas cartas/E não me procure mais” ou mesmo “Entre por essa porta agora/e diga que me adora”, que me trazem sempre suspeitas por suas aparições em novelas da Globo, e são pouco ou muito piegas, mas que tem fundamental função no disco: fazer chorar os amantes.

Estou mais no público de Adriana depois de absorver Público.

*Leiam o blog Pelos Ares, de Adriana Calcanhoto.

2 Comentários

  1. rsss… às vezes gosto, às vezes não.. odiei aquela versão que ela fez do Claudinho e Bochecha, mas ela cantando “devolva-me” sempre me emociona…

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"No Museu Dos Vencidos estão reunidos todos os papeizinhos com os discursos de agradecimento não lidos pelos perdedores de todos os prêmios."
Michel Melamed