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Quando visitei Jaçanã

Das grandes dificuldades da minha infância, lembro-me especialmente de não conseguir prender tampinhas de cerveja nos dedos. Sim, no bar em que vivi boa parte dos meus divertimentos de menino, como um observador e analista das relações boemias, era prática o amassar as tampinhas e prendê-las nos dedos para fazê-los de baquetas, cujo tambor era não mais que a própria mesa de bar, daquelas de metal, salpicadas de ferrugem e cheirando a cerveja derramada.

Enquanto a fraqueza nos dedos não me permitia a façanha, ouvia atento músicas belíssimas, ao mesmo tempo que simples e misteriosas. Entendia pouco do entusiasmo em que eram entoados os versos de amor nos sambões, onde mulheres de quartos generosos dançavam tão generosamente com os ébrios da mesa. Àquela época, de pouco mais ou menos que uma década na idade, entendia pouco ou nada de amor, que os coroas do samba não se fartam de cantar.

Lá conheci Jaçanã, a moradia que Adoniran Barbosa imortalizou em sua canção Trem das 11. Trata-se do hino da boa desculpa que os mancebos dão a suas amadas, que, verdadeira ou falsa, serve à natureza menos dedicada do homem, notadamente o boêmio – o que não significa, de modo algum, minoria de amor (por prova, vejam os cabras que despedem-se de sua dama apenas para chorar a saudade dela num botequim).

Inda hoje ressoa em meus ouvidos o “quais, quais, quais, quais, quais, quais”, o “quaiscalingudum”, e todas essas onomatopéias que Adoniran usou, que tem a mesma origem da minha tampinha amassada: ambas querem suprir a necessidade do instrumento, ante a premente vontade de cantar um saudoso samba. São improvisos que tem um charme ausente na música bem elaborada, sem desmerecê-la, obviamente.

Hoje em dia já não sinto dificuldade em amassar tampinhas, e muitas vezes canto sambas mal entendidos por meninos que chegam ao bar para comprar guloseimas.

Um comentário

  1. Adoniran foi esquecido nesse carnaval… mas ele não fazia parte disso mesmo, acho que nem ligou.. rs

    vc continua um dos melhores cronistas que já li.

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"No Museu Dos Vencidos estão reunidos todos os papeizinhos com os discursos de agradecimento não lidos pelos perdedores de todos os prêmios."
Michel Melamed