Carpe Diem? Pfff…
Digam “Carpe Diem” a um faminto, e não terão menos que um assassínio.
Carpe Diem? Pfff…
Digam “Carpe Diem” a um faminto, e não terão menos que um assassínio.

Um tipo comum de conduta é a semicorrupção, ou corrupção tímida. Em vez de ser um impetuoso malfeitor, o sujeito escolhe omitir-se aqui e ali, negocia propinas de modo bonachão, e dá dois tapinhas nas costas do corrupto de fato – aproveitando os frutos e rejeitando as responsabilidades.
Aliás, esse é o grande grupo de homens: todos nós, de algum modo, somos uns semicorruptozinhos. São exceção os intolerantemente honestos, e os fortemente corruptos, que no final ganham o jogo, sustentados por nossa semicorrupção.

Li Almas Mortas, de Nikolai Gógol. O tal do Tchítchicov, herói da trama, é tão malandrão que até o leitor torce por suas indignidades. Trata-se de um ambicioso e ardiloso sujeito, sempre pilhado pelos desencontros da vida, fazendo-o perder e ganhar tudo ciclicamente, tal qual o jogador de cassino.
Por ter parte do manuscrito original queimado, Almas Mortas tem algumas descontinuidades, mas não deixa de ser boa obra, com a ironia que investe contra a corrupção e o provincianismo do povo russo – um correspondente um tanto mais frio do povo brasileiro. Ri-se um tanto e reflete-se um pouco com Gógol, não obstante a obssessão pela discussão da pátria, o que acaba deixando o romance menos universal.

Ouvi todo o Partimpim 2, de Adriana Calcanhoto. Disco de alto nível, mais um acerto dum dos destaques do que se faz de música hoje no Brasil. Trenzinho Caipira e Bim Bom, dois clássicos de Villa Lobos e Tom Jobim, respectivamente, estão belissimamente repaginados. Bim Bom está em formato samba-reggae. Lindo.
Ah… Não deixem de ouvir e se entusiasmar com o refrão de Menina, menino.
Se cai o lenço de madame, lanço-me para salvá-lo de qualquer possível tragédia entre o chão e vossos dedinhos…


Afora os amigos, o homem de espírito carece dalgum interlocutor de certa inteligência uma ou outra vez. Se bem que a amizade pode fazer interseção com a inteligência, mas pode-se discordar menos dos amigos, mesmo que sejam inteligentes.

É desses filmes e novelinhas a ideia de que os amores sempre se satisfazem. Após atalhos e obstáculos, o rapazito encontra finalmente a mocinha, que deixa o galã esbelto e dominante para valorizar o fracote que, vá lá, ainda que seja fracote, ama-a.
Atentem-se os fracotes, já que o amor gosta de se apresentar como um soco no queixo. Certeiro, firme e intenso soco no queixo – principalmente nos vulneráveis fracotes.

Em termos de estudo, Joice sempre esteve aplicada e destacada – uma pequena esforçada, por assim dizer. Aos 12 conheceu Quixote, debutou com Dostoiévski sob o braço, firmou a maioridade ladeada de Euclides da Cunha.
“Ora, mas que sentido há em viver letras?” – perguntou-se lá pelos 20.
Joice, hoje aos vinte e pouco, está puta.

Tenho me eximido de comentar fatos ordinários por aqui, uma medida para atentar contra a rotina e a audiência (oh, que desculpas para a incompetência!). Mas tal é o incômodo com nosso futebol que, vá lá, não é mal deixar por aqui alguns pitacos.
Antes, digo ser admirador dos que sociologicamente galhofam do povo brasiliano por estarem em tempos de Copa assim, tão desnorteados. “O ópio do povo”, “não nos importa o que é de se importar” e conclusões parecidas pipocam por aí, dignas de sincero respeito por parte deste alienado contribuinte das empresas que lucram com o football.
Mas, indo ao ponto, o que nos foi em África do Sul? O argumento primeiro é a convocação: Ronaldinho Gaúcho, Neimar, Ganso. Fosse eu o técnico, estariam lá os três, notadamente o primeiro e o último, criadores da necessária patacoada em campo, opções à altura e até maiores ao branquelo Kaká. Uhn… Diego Tardelli também viajaria comigo.
Mas com os que lá estavam não era impossível conseguir algo mais. Faltara vontade, fome de bola, essas coisas que dizem sempre faltar ao futebol brasileiro perdedor. “Formamos um grupo”, disse o Dunga – que extirpou de minha memória o saudoso anãozinho da Branca de Neve, pondo-se no lugar, enfezado, pedante e (pior!) perdedor. Se o encontro, digo que minhas professoras primárias sempre formaram grupos nas escolas em que estudei, todos eles péssimos em questão de bola.
Em verdade, eis o principal problema dos canarinhos. A tropa se espelhou no comandante. O ato desastrado do Felipe Melo, pré-anunciado e repetido na própria Copa, não obteve a rechaça do comandante, que parece ter propagado seu espírito belicista no grupo. Reclamações, xingamentos, vinganças e outros expedientes similares foram a característica do “grupo”.
Nosso técnico forjou uma milícia, e esqueceu-se de forjar um time de futebol.
aliás, um blogue é um instrumento de manifestação de afeto dum sem-o-que-fazer para outros sem-o-que-fazer. já que me vejo atarefado, ignoro-os. é o que ocorreria com o meretrício, caso acertasse na loteria.
,