wine

devo confessar que muito do publicizado aqui é feito acompanhado ao vinho. afinal, como ensina-nos a santa ceia, os momentos solenes devem vir acompanhados de algum alucinógeno…

devo confessar que muito do publicizado aqui é feito acompanhado ao vinho. afinal, como ensina-nos a santa ceia, os momentos solenes devem vir acompanhados de algum alucinógeno…
Vivo em uma cidade provinciana e deveras desidiosa com as artes. Feira de Santana, um agreste município de coronéis e famílias, digamos, nobres. Ou melhor, em itálico e aspas: “nobres”.
Por isso, venho fazer apologia a duas fantásticas iniciativas: a Revista Transa e o Feira Coletivo Cultural. Oxigênio para os pulmões de qualquer desacreditado feirense.
- Poucos homens têm essa sensibilidade, inteligência e humor…
- Você acha?
- Sim, e menos ainda têm a coragem romântica de oferecer vinho a uma dama.
- Uhn…
- Mais: a essa hora da noite, nessas circunstâncias, pouquíssimos, ou apenas um, não teria me beijado!
…

Das partes do corpo feminino, os braços são das que mais dizem respeito às qualidades duma mulher. A dureza, a consistência, a cor, a densidade, a penugem existente ou não. Os braços são a expressão da personalidade duma moça, se não mais: são seu próprio corpo resumido.
Não é de estranhar que em Ray, filme que diz a trajetória de Ray Charles, o músico, mesmo cego, entendesse suas pretendentes apalpando-lhes os braços. Tampouco apavora que os escritores antigos promovam os braços a primeira peça de julgamento na beleza feminina.
Os braços, jovens namorados. Observem os braços!

Fala-me um velho que encontrei aos dominós numa praça: “arrume-se com alguém, mestre. Em dado momento, farão falta as unhas de carícia em suas costas e os cuidados após os porres. Arrume-se com alguém, ou lhe sobrarão apenas os dominós”.

Hoje tomei suco de limão e comi empadas. Empadas de camarão com catupiry, calabresa apimentada e salmão com rúcula. Bueno!
não é de todo inútil o diagnóstico das disparidades num casal. “ele é assaz belo para ela”, ou “muito mais inteligente ela do que ele”, arrematado por “não se merecem”. conheço alguns episódios que, de fato, isto se deu – para não dizer que vivi um ou outro.

Choro com uma facilidade ímpar, como uma mulherzinha, admito. Qualquer manifestação de admiração ao belo, ou mesmo declarações viscerais* fazem-me ir às lágrimas. Copiosamente até, como no caso da leitura de Gabriel García Marquez, em Cem anos de solidão. Ou em Menina de Ouro, de Clint Eastwood. A última grande-emoção-que-me-fez-chorar foi em quando a jornalista desabafou: a seleção brasileira retomou o futebol arte!
“Mulherzinha”, dirão por si só meus leitores, sem meu incentivo, mas vejam a massa se importando com a arte em lugar do resultado e entenderão. E olhem que não faço praça de bonzinho – não cedo centavos a pedintes, por exemplo, salvo aqueles que executam malabarismos em semáforos.
No fim, ser chorador até ajuda o homem com as mulheres, o homem cafajeste, naturalmente, o que não penso ser meu caso.
*Adjetivo muito empregado por críticos literários e magarefes.
- Mãe… Por que o trabalho intelectual tem sua fome específica? Dá cá uma roedeira, um tremilique miserável.
- Uhn, e eu sei? Só sei que estás com uma cara sincera de esquiúpe!

Quando dois velhos amigos se encontram há prazer em comentar reminiscências que para outros, ou até para eles mesmos isoladamente, seria algo enfadonho e fora de ritmo. Joaquim e Bino fazem isto agora, rindo exacerbadamente dos dias em que levantavam as saias das pequenas e iam-se correndo para o banheiro do colégio. Peraltices, peraltices…
“Conta-me, sujeito, o que fazes com tão largos bigodes”, indagava Bino. “Eu, Bino, estou de trabalhador no governo, lento como vem a calhar a um trabalhador do governo e ortodoxo como cabe a um homem com bigodes”. Bino sorriu com a autocrítica de Joaquim, e falou de si.
“Continuo a levantar saias, meu bom. Vivi um tempo em França, um outro em Moçambique, e voltei ao Brasil num surto de banzo”. “Sem dúvida, há mulher nesse teu ciganismo…”, soltou Joaquim. “Oh, e como…”, riu Bino.
Depois de mais duas ou três palavras, e alguns “marquemos para nos ver com calma”, “tu estás mais magro”, “como andam fulano ou cicrano”, e expressões equivalentes, despediram-se. No futuro, Joaquim elegeu-se deputado, nem bom nem mau, escondido em dois mandatos, tempo suficiente para ganhar o necessário e recolher-se como fazendeiro. Já Bino, após saias e saídas para horizontes novos, resolveu criar bigode – sem a lentidão de Joaquim, haja vista não ter conseguido um cargo no Governo.

Converso com um amigo que me vem dizer de revolução, igualdade e divisão do poder para a plebe. “Faz-se necessário um grande líder, com a competência de distribuir os quinhões aos miseráveis”. “É certo que as massas não pensam estrategicamente, antes sonham em comer e viver. Por isso, forjemos um grande estrategista, e ele dará vida e justiça ao povo”.
“O impasse, caríssimo” – dizia eu – “é que os grandes líderes sempre pensam estrategicamente, e pensar estrategicamente é uma delícia e um risco”.
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