Ô Saudade. O sal da idade.
Há vinte anos, ofereceram-me um «fragmento do muro de Berlim», e há dias, em Berlim, deram-me outro igual. Há «fragmentos» a mais em circulação, que excedem de certeza a extensão total do muro. Mas com os símbolos é mesmo assim: eu também tenho recordações tuas que nunca mais acabam, recordações a mais para tão pouco tempo, recordações às vezes quase inventadas mas nem por isso menos verdadeiras.
artembriaguez
Não brinco quando digo que fico bêbedo sem tomar álcool. A embriaguez, nos termos em que o álcool nos leva à embriaguez, certamente é possível mediante outros artifícios, como o consumo imoderado de certos artistas pervertidos. Naturalmente, ser levado a esta condição nestes modos é algo imprevisível e até acidental, nem sempre repetível. Eis porque algumas religiões, para garantir, proíbem o álcool. E a arte.
Algumas obras intelectuais exigem esforços e sofrimentos hercúleos. Que mané criatividade e talento. Pfff… Produzir é mais um cansaço que uma inspiração.
Carlos Lyra anuncia que “saudade fez um samba em seu lugar”. Há, porém, as saudades que fazem roques, outras orquestram sinfonias e peças clássicas. Mas mais curiosas são as saudades que curam a ausência pondo em substituição, quem diria, o silêncio. Algo como uma saudade pleonástica.
O Código Florestal é o Código Genético das Flores tal é o Có – digo Florestal. Gene de Floresta.
O gay é uma espécie de evolução. Espero o dia em que meu filho chegará em casa e dirá: “papá! fiquei com uma pessoa mui bela em casa…”. E papá, sem pudores nem meios, indagará: “homem ou mulher, filhote?”.
Se “aparar as arestas” é o mesmo que sanar os desentendimentos, concordar, logo entendo que “aparar as diagonais” é… uhn…
E aparar os vértices?
oh.
Que absurdo!
C’est la vie
O que nos resta, de tudo, é a solidão – não apenas o sentimento angustiante e vazio de estar entre si, mas também a preponderância de coisas que nos são próprias, características. Por mim, tenho a arte e o pensamento como prática permanente de cultivo do espírito. Vá lá, a escrita e a produção de trivialidades também estão por aí.
C’est la vie.
A morte do amor
Tolo o sujeito que mostra ao amor que há vida após a morte, do amor. É condição primeira para que o amor morra o saber que o amor morre, e a pessoa – mesmo esfrangalhadamente – vive.
As fraturas são instantes em que a docilidade foge-nos ao espírito; como na quinta de Beethoven, a fúria corrói o convencionalismo, e a rebeldia torna-se necessária, mesmo que não fundamentada. Em uma palavra, a crise nos leva à indisciplina.
Vai-se ficando velho, e a coluna começa a doer – notadamente naqueles dados a encuvar-se em leituras.
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