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Euforia e Tédio

Estar entediado e eufórico a um só tempo é experimentar certos impasses curiosos (e já há aí algo notável, dada a incompatibilidade dos ‘impasses’ com as ‘curiosidades’). Longe de ser uma contradição, esta combinação do tédio com a euforia dá causa a contemplações ácidas, vorazes até – contemplações a paisagens em que o próprio sujeito está inserido, pois é da euforia a militância na realidade. E, sim, é do tédio o afastamento intelectual disto que chamam mundo.

Certamente as exceções da humanidade se notabilizam por sua militância, e por sua capacidade de afastamento e análise. Certamente os grandes homens são eufóricos, e entediados.

 

Em dada intensidade da vida, a batalha a ser enfrentada é a da manutenção da sanidade. Enlouquecer é o grande risco das crises.

faz anos Fernando Pessoa

Hoje faz anos Fernando Pessoa. Não sei se são anos de sua morte ou de seu nascimento. Mas faz anos. Também não sei adjetivo para Fernando Pessoa (outros tantos idiotas estão, em todo mundo, adjetivando Fernando Pessoa, ou ignorando um adjetivo para Fernando Pessoa). O certo é que não se trata de qualquer sujeito o autor disto:

“Não sou nada.
Nunca serei nada.
Não posso querer ser nada.
À parte isso, tenho em mim todos os sonhos do mundo.”

Ou disto:

Fazes falta? Ó sombra fútil chamada gente!
Ninguém faz falta; não fazes falta a ninguém…
Sem ti correrá tudo sem ti.
Talvez seja pior para outros existires que matares-te…
Talvez peses mais durando, que deixando de durar…

Enfim. Feliz Fernando Pessoa.

Braz (3)

Braz geralmente chegava a seu lar – sem companhia outra senão um gato preguiçoso com quem conversava melhor do que com gente – e punha as pernas cansadas sobre uma caixa de madeira que ficava sempre à frente da poltrona. Poltrona destas de papai, diga-se. Era um dos notáveis momentos de reflexão, onde matutava sobre as coisas que vira na rua naquele dia (geralmente as mesmas, ou outras previsivelmente decorrente das mesmas).

Ali encurvava sua coluna num ângulo perfeitamente confortável, dum modo que os especialistas do jornal diziam ser prejudicial, mas, vá lá, pensava Braz, eis o juro a ser pago por algum prazer nesta vida. Além do mais, nada muito além da feiúra podia lhe trazer aquela curvatura nas costas. Dane-se.

Desafio

Entre os desafios postos ao indivíduo médio, está a manutenção da sobriedade em momentos de devaneio. Praticar a moderação em instantes de efusão. Ser modesto quando o tempo é de pompa.

Ahn… Este é um desafio idealista e incompatível com o carpe diem. Porém, um desafio, deveras.

se vi(e)sse o nu de tua alma tão facilmente como eventualmente posso ver o nu de teu corpo

Braz (2)

Como curtia caminhar sob a chuva (!), naturalmente, protegido por seu guarda-chuva enorme e preto tanto quanto sua capa. E botas, dessas que usam os motociclistas.

Braz sentia na chuva algo em comum com seu espírito geralmente nublado. Braz sentia na chuva algo em comum com seus olhos geralmente molhados (apesar dessa comparação sempre ter lhe parecido sobremaneira piegas).

Braz (1)

Braz era um sujeito de alma moribunda e barba por fazer. Boêmio incansável, tinha o costume de fechar os bares das redondezas do apartamento em que morava – um imóvel úmido e amarelado. Era sempre o último a sair, não por muita militância nas discussões de mesa de bar, mas porque dedicava-se ao estudo dessas discussões, e só quando era intimado a falar é que falava (apenas para satisfazer os bêbedos, ou para pagar o quinhão de conversa necessário à presença num boteco).

Não aceitava que lhe enchessem o copo de cerveja em mais da metade, “para não esquentar”, dizia. Também possuía a habilidade de abrir a cerveja na mesa ou no dente, sem chave (abridor, para os polidos). Como se vê, de fato, era Braz rico em algum conhecimento boêmio.

Estou a ler “O Idiota”, de Dostoiévski. Entre os autores de linhagem, Dostoiévski é o especialista em crises, é aquele que devassou o estoque de rompimentos possíveis para o homem. Uma pequena descrição d’O Idiota:

“Varvara Ardaliónovna era moça de uns vinte e três anos, estatura mediana, bem magricela, um rosto que não se podia dizer que fosse lá muito bonito mas detinha o segredo de se fazer gostar sem possuir beleza e atrair a ponto de provocar paixão. Era muito parecida com a mãe, inclusive estava vestida quase do mesmo jeito, por total falta de vontade de arrumar-se. De quando em quando o olhar dos seus olhos castanhos podia ser muito alegre e carinhoso, se mais amiúde não estivesse sério e pensativo, às vezes até demais, particularmente nos últimos tempos. [...]”

O pateta…

Cá entre nós, mas estou entre a categoria denominada, err, ‘pateta’. Que é um pateta? Bem, antes é útil discutir o que é uma categoria, não?

(pausa para ouvir Blute nur, du liebes Herz! de Bach).

Pois bem… Categoria é uma classificação que ressalta algo em comum entre dois ou mais sujeitos. Categoria é aquilo em que se encontram os pulhas sem originalidade.

Eu tenho uma, pelo menos. Esta é a dos patetas, como disse. E ser pateta, cachorrinhos, é não menos que ter algum empeno no raciocínio, levando-nos a destinos intelectuais incorretos. A patetice é uma semi-loucura, uma condição que, vá lá, até não impede que se viva em sociedade, mas torna o indivíduo indigno de ser levado a sério. Eis o que é o pateta (e eu próprio).

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"Insanidade é fazer a mesma coisa uma e outra vez e esperar resultados diferentes."
Einstein