la Française

a pinta no queixo. eis tudo.
Digitava freneticamente textos eróticos enquanto bebia uísque. Dose extrovertida, com três pedras de gelo. Era o tiquetram do teclado acompanhando o tlimtlenque dos cubos nas paredes do copo. Era tudo que ela não era aqueles contos – uma noviça material, boba e mal vestida. Mas tomava uísque, e escrevia textos eróticos.
Entre as coisas que a vida nos põe está a manutenção do controle. O controle. Eis o grande desafio: o controle.
Ter onde pôr as mãos é um dos desafios da vida. Em todas as ocasiões constrangedoras, em toda solenidade, há este dilema: onde pôr as mãos?
Veja o antecedente do beijo, quando não se sabe se se beija ou não: onde diabos pôr as mãos?
Ladear belas moças, sinceras autoridades, estar à mesa próxima dum amor: onde as mãos devem se situar?
(Muitas vezes a tradição é pô-las ao bolso – grandes confidentes dos nossos constrangimentos).
Que é a primeira mulher da vida de um homem? Aquela com a qual se faz o primeiro coito? Difícil critério, tendo em vista os semicoitos, as putarias, as idas e vindas marotas por entre pernas e bustos que marcam a vida. A primeira paixão? Como? Se geralmente o sujeito nem toca esta inalcançável figura que permeia seus sonhos e frustrações? (Aqui cabe um parêntese para dizer que o primeiro coito nunca é a primeira paixão, pois esta última não é tocável, não possui sexo).
Há um amigo que diz-me que não se saberá em vida quem se trata de primeira mulher, pois esta é aquela que mais chora ao caixão do homem, então defunto. Naturalmente, percebe-se que o pulha usa o adjetivo competitivamente, tendo ‘primeira’ como a mais insistente, não como a cronologicamente mais antiga.
Sugiro que se use o ‘primeira’ circunstancialmente. Há dia que a primeira é fulana, há dia que a primeira é cicrana. Há quem tenha a primeira e única. Há quem tenha empates. Eis a teoria da primeira mulher.
A obra de Jackson Pollock me causa tesão como poucas artes plásticas. Ainda não encontrei a tensão raivosa expressa em algumas de suas pinturas em qualquer literatura, mas talvez a música de Beethoven lhe seja similar.

“Abrir as pernas” é lido como o ato da mulher dar sexo ao homem. Trata-se de um emprego vulgarizado, dito entre expressões menores, pouco cuidadosas. “Abrir as pernas” é mais que dar sexo; é a atitude mais passional possível para uma mulher. Poucas cenas são belas quanto aquela em que se vê pernas abertas. Poucos atos exigem tanto espírito do homem quanto o abrir de pernas de uma mulher.
Irritam certas amenidades que, para o geral, devem fazer parte da convivência. Os que possuem certa afeição pela reclusão entendem isto, e certamente gastam algum número de humor com estes detalhezinhos que são mais ou menos um protocolo casado com uma falsidade. É que a metodologia das relações supera suas substâncias.
“Olá! Liga-me ou não me gosta!”. Patifaria.
Ainda não sou um sujeito decadente. Antes, considero-me um destes palhaços de circo roto, falido. Há espetáculos ainda a se fazer, para um publicozinho miserável, que, sei lá, talvez sequer entenda outra piada que não um tropeço encenado, um rasgão de calça ao sentar-se e coisas desta laia.

Tinha um ar de ingenuidade, não obstante seu corpo exprimisse a sensualidade que impunha imponência e lucidez. Eis o perigo. Eis o perigo.
,