faz anos Fernando Pessoa

Hoje faz anos Fernando Pessoa. Não sei se são anos de sua morte ou de seu nascimento. Mas faz anos. Também não sei adjetivo para Fernando Pessoa (outros tantos idiotas estão, em todo mundo, adjetivando Fernando Pessoa, ou ignorando um adjetivo para Fernando Pessoa). O certo é que não se trata de qualquer sujeito o autor disto:
Ou disto:
Enfim. Feliz Fernando Pessoa.
Estou a ler “O Idiota”, de Dostoiévski. Entre os autores de linhagem, Dostoiévski é o especialista em crises, é aquele que devassou o estoque de rompimentos possíveis para o homem. Uma pequena descrição d’O Idiota:
“Varvara Ardaliónovna era moça de uns vinte e três anos, estatura mediana, bem magricela, um rosto que não se podia dizer que fosse lá muito bonito mas detinha o segredo de se fazer gostar sem possuir beleza e atrair a ponto de provocar paixão. Era muito parecida com a mãe, inclusive estava vestida quase do mesmo jeito, por total falta de vontade de arrumar-se. De quando em quando o olhar dos seus olhos castanhos podia ser muito alegre e carinhoso, se mais amiúde não estivesse sério e pensativo, às vezes até demais, particularmente nos últimos tempos. [...]”
Há vinte anos, ofereceram-me um «fragmento do muro de Berlim», e há dias, em Berlim, deram-me outro igual. Há «fragmentos» a mais em circulação, que excedem de certeza a extensão total do muro. Mas com os símbolos é mesmo assim: eu também tenho recordações tuas que nunca mais acabam, recordações a mais para tão pouco tempo, recordações às vezes quase inventadas mas nem por isso menos verdadeiras.
“Se há entre os meus leitores jovens que aspiram tornar-se líderes do pensamento da sua geração, espero que evitem certos erros em que caí quando era novo por falta de bons conselhos. Quando desejava formar uma opinião sobre um certo assunto, costumava estudá-lo, avaliar os argumentos a favor dos diversos pontos de vista e tentar chegar a uma conclusão ponderada. Descobri depois que esta não é a maneira de fazer as coisas. Um homem de gênio sabe tudo sem precisar estudar; as suas opiniões são pontificais e o seu caráter persuasivo não depende de argumentos, mas do estilo literário. É necessário ser parcial, pois isso facilita a veemência que é considerada uma prova de força. É essencial apelar a preconceitos e paixões de que os homens se começaram a sentir envergonhados, bem como fazer isso em nome de uma nova ética inefável. É bom rebaixar as mentes lentas e tacanhas que exigem dados para chegar a conclusões. Acima de tudo, deve-se apresentar aquilo que é mais antigo como se fosse a coisa mais inovadora.”
Bertrand Russell
“Quando as dúvidas se tornavam insuportáveis, vinha-me a necessidade de afirmar. Madalena tinha manha encoberta, indubitavelmente” – Graciliano Ramos, em S. Bernardo.
Pitágoras
Não é bom esquecer que a soma dos quadrados dos catetos é igual ao quadrado da hipotenusa. Não é bom esquecer.
A religião do nosso homem
“Admito Deus, pagador celeste dos meus trabalhadores, mal remunerados cá na terra, e admito o diabo, futuro carrasco do ladrão que me furtou uma vaca de raça. Tenho portanto um pouco de religião, embora julgue que, em parte, ela é dispensável num homem.”
“O problema está em não haver um critério objectivo que nos permita distinguir as coisas ‘más’ das coisas ‘boas’. Estas duas palavras servem para mostrar o que pensamos das coisas e como desejamos vê-las consideradas. Considero a crueldade e o assassínio em massa coisas más e desejava que todos concordassem com a minha opinião. Isto não evita que outros desejam tanto a crueldade como o assassínio em massa, tal como demonstra o procedimento de todos os que ocupam posições de mando e da maioria da humanidade.” – Bertrand Russell
Nelson Rodrigues, ora…
“Sou um menino que vê o amor pelo buraco da fechadura. Nunca fui outra coisa. Nasci menino, hei de morrer menino. E o buraco da fechadura é, realmente, a minha ótica de ficcionista. Sou (e sempre fui) um anjo pornográfico.”
“Deve-se escrever da mesma maneira como as lavadeiras lá de Alagoas fazem seu ofício. Elas começam com uma primeira lavada, molham a roupa suja na beira da lagoa ou do riacho, torcem o pano, molham-no novamente, voltam a torcer. Colocam o anil, ensaboam e torcem uma, duas vezes.
Depois enxáguam, dão mais uma molhada, agora jogando a água com a mão. Batem o pano na laje ou na pedra limpa, e dão mais uma torcida e mais outra, torcem até não pingar do pano uma só gota.
Somente depois de feito tudo isso é que elas dependuram a roupa lavada na corda ou no varal, para secar. Pois quem se mete a escrever devia fazer a mesma coisa. A palavra não foi feita para enfeitar, brilhar como ouro falso; a palavra foi feita para dizer.”
Graciliano Ramos
“Naquilo que importa, sou um homem sério, ou seja, um homem estranho. Estou totalmente devotado a uma causa, e às consequências dessa causa, e por isso passo por radical, eremita, malcriado, porém não posso ser sério sem ser estranho, a seriedade é incompatível com o «tudo como dantes», com grotescas amenidades, um homem sério precisa de ausências, manias, mutilações.”
Deslumbramentos, por Cesário Verde
Milady, é perigoso contemplá-la,
Quando passa aromática e normal,
Com seu tipo tão nobre e tão de sala,
Com seus gestos de neve e de metal.
[...]
Pois bem. Conserve o gelo por esposo,
E mostre, se eu beijar-lhe as brancas mãos,
O modo diplomático e orgulhoso
Que Ana de Áustria mostrava aos cortesãos.
[...]
Mas cuidado, milady, não se afoite,
Que hão de acabar os bárbaros reais;
E os povos humilhados, pela noite,
Para a vingança aguçam os punhais.
E um dia, ó flor do Luxo, nas estradas,
Sob o cetim do Azul e as andorinhas,
Eu hei-de ver errar, alucinadas,
E arrastando farrapos – as rainhas!
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