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Oxigênio.

Vivo em uma cidade provinciana e deveras desidiosa com as artes. Feira de Santana, um agreste município de coronéis e famílias, digamos, nobres. Ou melhor, em itálico e aspas: “nobres”.

Por isso, venho fazer apologia a duas fantásticas iniciativas: a Revista Transa e o Feira Coletivo Cultural. Oxigênio para os pulmões de qualquer desacreditado feirense.

‘Sofro torturas morais por me ter masturbado no ano passado…’

Em 1964 João Gulart caía. E este senhor cá de baixo, que fazia?

Respondia a carta seguinte dum jovem mancebo:

«… Tenho muito interesse em saber o que pensa sobre a masturbação… Sofro torturas morais por me ter masturbado no ano passado… Tenho lido que o sentimento de culpa dos adolescentes que se masturbam se não pode apagar, estou arrependido e à beira do suicídio. O Sr. é a minha última esperança; poderia ter a bondade de me ajudar a resolver o meu problema?…»

Que responde nosso herói? Segue:

24 de Dezembro de 1964

Caro Senhor:

… No que respeita à masturbação, acontece praticamente a todos durante a adolescência. O conceito de que é perversa ou prejudicial é uma invenção cruel dos mais velhos para meterem os mais novos na ordem. O seu sentimento de culpa está deslocado, porque a masturbação não prejudica nada nem ninguém.

Russel, Bertrand Russel.

A amizade possível, por Pedro Mexia

Ai, como queria ter escrito isto:

Há quem viva obcecado com a dimensão ética da amizade. Compreendo, também tenho essa tendência, e passei pelos inevitáveis percalços como culpado e como vítima. Mas muitas vezes a história de uma amizade não passa pela ética. Depende de factos objectivos, como mudanças de cidade ou casamentos. E no meu caso tem também passado pela falta de empatia. Em momentos chaves da minha vida, fiquei sem amigos apenas por ausência de empatia. Ninguém cometeu nenhuma falha ética, mas eu falava outra língua, uma língua que os meus amigos não entendiam. Até aí, eu julgava que a amizade era uma escolha. Hoje, sei que é apenas a arte do possível.

Leiam o Lei Seca.

o pote todo dia vai à fonte, mas um dia ele quebra…

devagar com o andor, pois o santo é de barro.

O peralta do Gógol

“Apesar de já haverem transcorridos oito anos desde as suas bodas, cada um deles ainda trazia para o outro, todos os dias, ora um pedacinho de maçã, ora uma balinha, ora uma avelãzinha, e dizia em tom comovente e terno, expressando um amor total: ‘Abre, benzinho, a boquinha, que eu te darei este bocadinho’.”

Que peralta, este Gógol, não?

Uma bichinha complicada com uma poesia não menos densa.

Que coisa. Não é que esqueci de O Outro, a sete do disco aí de baixo, cantado por Adriana Calcanhoto? Sim, sim… E trata-se de um poema de Mário de Sá-Carneiro musicado por ela, autora da homenagem ao poeta português feita aqui no título.

Ahnm… Sá-Carneiro é para mim um gênio. Prova é seu Caranguejola, que deixo com vocês por hoje:

Caranguejola

Ah, que me metam entre cobertores,
E não me façam mais nada!…
Que a porta do meu quarto fique para sempre fechada,
Que não se abra mesmo para ti se tu lá fores!

Lã vermelha, leito fofo. Tudo bem calafetado…
Nenhum livro, nenhum livro à cabeceira…
Façam apenas com que eu tenha sempre a meu lado
Bolos de ovos e uma garrafa de Madeira.

Não, não estou para mais; não quero mesmo brinquedos.
P’ra quê? Até se mos dessem não saberia brincar…
Que querem fazer de mim com estes enleios e medos?
Não fui feito p’ra festas. Larguem-me! Deixem-me sossegar!…

Noite sempre p’lo meu quarto. As cortinas corridas,
E eu aninhado a dormir, bem quentinho – que amor!…
Sim: ficar sempre na cama, nunca mexer, criar bolor -
P’lo menos era o sossego completo… História! Era a melhor das vidas…

Se me doem os pés e não sei andar direito,
P’ra que hei-de teimar em ir para as salas, de Lord?
Vamos, que a minha vida por uma vez se acorde.
Com o meu corpo, e se resigne a não ter jeito…

De que me vale sair, se me constipo logo?
E quem posso eu esperar, com a minha delicadeza?
Deixa-te de ilusões, Mário! Bom édredon, bom fogo -
E não penses no resto. É já bastante, com franqueza…

Desistamos. A nenhuma parte a minha ânsia me levará
P’ra que hei-de então andar aos tombos, numa inútil correria?
Tenham dó de mim. C’o a breca! levem-me p’rá enfermaria -
Isto é: p’ra um quarto particular que o meu pai pagará.

Justo. Um quarto de hospital – higiénico, todo branco, moderno e tranquilo;
Em Paris, é preferível, por causa da legenda…
De aqui a vinte anos a minha literatura talvez se entenda;
E depois estar maluquinho em Paris, fica bem, tem certo estilo…

Quanto a ti, meu amor, podes vir às quintas-feiras,
Se quiseres ser gentil, perguntar como eu estou.
Agora no meu quarto é que tu não entras, mesmo com as melhores maneiras.
Nada a fazer, minha rica. O menino dorme. Tudo o mais acabou.

Mário de Sá-Carneiro

Brilhante, não?

um belo sujeito

Cauby Peixoto

“Passo o dia em casa me ouvindo” – Cauby Peixoto.

Marca Cristã

Mexia, em Lei Seca:

Além da metafísica, conservo uma marca genética cristã: não aceito um inquestionável domínio do mais forte sobre o mais fraco. Não há regras «naturais» inevitáveis. A civilização contraria o que a natureza determina. Através da ética, por exemplo. E a minha ética é que os homens são desiguais mas têm igual dignidade. A dialéctica do senhor e do escravo pode ser muito inteligente e dar muita ponta, mas é intrinsecamente iníqua.

Vanguarda

Vanguardado Ryot IRAS, no Inagaki.

Next,

"Considero a crueldade e o assassínio em massa coisas más e desejava que todos concordassem com a minha opinião. Isto não evita que outros desejam tanto a crueldade como o assassínio em massa, tal como demonstra o procedimento de todos os que ocupam posições de mando e da maioria da humanidade."
Bertrand Russel