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Continuo a empreender uma batalha contra o desdém: quanta preguiça das depredações a minha integridade. Peço um furor, uma raiva, um rancor, e, pasmo, vem-me apenas um chiste, quando muito. Ou superei a humanidade, ou estou abaixo dela.

Ou a encontrei, enfim.

férias às férias – porque ninguém é de nuvem.

Um clichê: “Não confie em quem lhe mente. Não minta para quem confia.”

 

Carta de amor para um ano novo

“Felizmente, ainda acredito em conto de fadas, e minha estória terá um final feliz. Te desejo tudo de bom e, acredite, chegou o final – e se não deu certo é porque não era para ser. Ninguém tem culpa.”

Banhar-se em trivilidades, dedicar-se a cotidianices, abraçar a rotina. Expediente dos que tentam negar as grandes dores, evitar a intensidade de certas perdas ou expectativas.

aproveitador. aproveita a dor. a pró veta a dor. a proveta da dor. aprove a dor. a prover tá a dor.

 

ah, a arte de não saber onde pôr as mãos.

sempre isto se atualiza à madrugada: trata-se de um cometimento tão bárbaro e grave quanto os mais graves e bárbaros crimes. homicídio: dos meus pudores intelectuais.

Talvez por ter-me formado cristão, sempre tive complicações para entender o conceito da mágoa. Sim, pois o cristianismo tem isto de não guardar mágoa. Nunca achei algo que, de fato, me deixasse ‘magoado’: pelo menos não como um estado permanente de contrariedade a alguém. Talvez por descaso ao que poderia levar-me a tal espírito. Talvez por nunca ter experimentado um mal suficientemente gerador de mágoa.

E que faz com indíviduos que não lhe agem bem? Geralmente afasto-me. Afasto-me e dou-lhes tapinhas às costas ao vê-los no bar. E não se trata de um gesto de mágoa.

Ia escrever algo sobre o amor. Enfim. Err…

Se acontecer de buscar uma leitura que lhe ocupe a vagueza do espírito e não encontrar, escreva. Escreva, mas não publique.

Vejo-me, então, tocado ao ombro direito pela dama de negro. Já não sabia como eram severas suas expressões, agressivo seu olhar. Abaixo os olhos e me entrego ao seu domínio.

Brincar o golzinho

Lembro-me do tempo em que ficávamos a brincar o golzinho aqui na rua. Dois ou três na linha; às vezes, para não ficar alguém de fora, quatro. Tinha aquilo de dois contra três, ou três contra quatro: a depender da presença ou não de alguém que era “bom”. “João é bom, já que tem sete, ficam dois com João e nós quatro formamos o outro time”. Tudo certo.

Cada trave eram duas pedras de paralelepípedos, ou, vá lá, duas sandálias. Um, dois, três passos entre uma pedra e outra – os marotos eram dados a afastamentos maiores na trave do time adversário. A bola saía justamente no meio-fio, que servia-se de linha lateral.

Hoje, os paralelepípedos estão sobrando amontoados, e não são mais que pedras. As ruas são vias de transporte. Nada além.

Não seria mau encerrar por aqui, neste gabinete – um cubo amarrotado de livros e poeira. Acompanha-me a clássica xícara cafeinada, a mão penteando o cabelo de vez em quando, o ranger da cadeira de girar – as cadeiras de girar são a melhor invenção que o homem criou após as mesas de girar (que facilitam pegar o açúcar para adoçar o café – se bem que “após”, aqui, se refere a “melhor”, não a qualquer elemento temporal).

Pois bem. Não seria mau.

um desejo? a paz estável de um copo d’água.

Os grandes autores, em uma palavra, possuem fôlego. A literatura é tanto uma apneia, em que o escritor faz economia do ar em seus pulmões, poupando-se exaustivamente para a sobrevivência, quanto um grito contínuo, que carece de vigor, vida e ousadia para se prolongar. Nesta pneumologia das letras, admito-me um asmático compulsivo – e incurável.

Sempre tive dificuldade para ler poemas. O texto lógico, matemático, sempre me deu a segurança de que estava entendendo o que lia. Hoje, com alguns anos à frente da primeira leitura poética que me propus, entendo o quanto é presunçoso e inútil entender poesia. E como a poesia só é poesia por não entender-se, ou melhor, por não se ter a segurança do entendimento. Eis tudo.

Quatro

Há sujeitos com o espírito voltado ao cotidiano, à prática repetitiva e constante das burocracias – trabalhadores incansáveis que fazem, digamos, o mundo girar. Estas peças são a maioria da humanidade, pois a ‘humanidade’ enquanto tal, exige esta estabilidade ordinária, da qual muitos homens fazem parte até compulsoriamente: poucos despacham carimbos e escavacam o chão todos os dias por tesão.

Há, porém, uma parte diminuta de pessoas que são inventores, inovadores e, ahn, artistas. Aliás, há os que são, de fato, e os que querem sair daquela primeira classe de ordinários para revolucionar o mundo (pff). Esses que querem são como a “Aurora sem Dia” machadiana. Tão inovadores quanto o resultado de dois mais dois.

O sujeito que aspira a vanguarda se ressente das burocracias, e chega a ter angústias por necessitar praticá-las, às vezes. O melhor, pois, é ser um burocrata de alto conformismo, e, quem sabe, aparecer como invador involuntário. O melhor e o difícil.

Entre as coisas que a vida nos põe está a manutenção do controle. O controle. Eis o grande desafio: o controle.

Onde pôr as mãos?

Ter onde pôr as mãos é um dos desafios da vida. Em todas as ocasiões constrangedoras, em toda solenidade, há este dilema: onde pôr as mãos?

Veja o antecedente do beijo, quando não se sabe se se beija ou não: onde diabos pôr as mãos?

Ladear belas moças, sinceras autoridades, estar à mesa próxima dum amor: onde as mãos devem se situar?

(Muitas vezes a tradição é pô-las ao bolso – grandes confidentes dos nossos constrangimentos).

"Insanidade é fazer a mesma coisa uma e outra vez e esperar resultados diferentes."
Einstein